Caro João Miguel Tavares,
No seu artigo da passada 5ª feira - "Dan Brown Vs Bento XVI" (DN, 02/06/2006) - defende que o velho ópio do povo foi substítuido por uma nova droga sintética - o Código Da Vinci. Este oferece aquilo que a Igreja já não pode oferecer: “o conforto da razão, a inabalável clareza da lógica, a segurança de uma matriz que une todos os pedaços desconchavados do mundo”. O Código Da Vinci, tal como a Igreja antes dele, calafeta o "edifício mental [do leitor] contra quaisquer espécies de dúvidas”, “é um analgésico para a alma; um pequeno porto de abrigo”, “ um fio invisível de sentido, que nos alegra e conforta” . Os fabricantes das velhas drogas duras não souberam adaptar-se ao novo tempo “em que tudo o que era sólido se dissolveu no ar” e foram ultrapassados pelos seus concorrentes new age.
Não podendo já contar com os opiáceos de marca "Igreja", o povo vira-se para os analgésicos genéricos new age, transformando-os num sucesso comercial.
Estarei a interpretar bem as suas palavras?
Ora, se assim for, existem alguns factos que estão em conradição com a sua tese, por exemplo:
- A citação completa das palavras do Papa em Auschwitz é a seguinte: “Porque razão, Senhor, permanecestes silencioso? Como pudestes tolerar tudo isto?; e o nosso silêncio transforma-se num apelo ao perdão e à reconciliação, num apelo ao Deus Vivo para que nunca mais permita que isto aconteça”. O Papa não está propriamente a por em causa "o fio invisível de sentido que nos alegra e nos conforta" ou "a segurança de uma matriz que une todos os pedaços desconchavados do mundo". Deus não abandonou os seus filhos. Aliás, as palavras de Jesus na Cruz, ao contrário do que a sua interpretação parece fazer crer, não são um grito de desespero. A leitura do Salmo 22, de onde as palavras de Cristo são retiradas, depressa afastará esse equívoco.
- Por outro lado, é falso que a Igreja não consiga explicar o Holocausto. O mesmo Papa Bento XVI até avançou recentemente uma nóvel teoria explicativa para o mesmo... E a questão do mal e da coexistência deste com um Deus Bom e Omnipotente, foi objecto de longa reflexão teológica. O Catecismo refere-se a esta questão, por exemplo, nos seus n.ºs 309 a 314.
- E se de facto o sucesso comercial do Código Da Vinci é explicado por esta tese, é difícil explicar o ainda maior sucesso comercial da “Paixão de Cristo”, o crescimento do número de fiéis a nível mundial ou a vitalidade dos novos movimentos.
Uma interpretação alternativa do seu artigo é considerá-lo um mero exercício de humor. E em apoio desta interpretação está o facto de classificar o Código Da Vinci como um prodígio de lógica e racionalidade - Jesus não é Deus. Logo, adoremos a sua pseudo-esposa. Lógico! -.
Estarei enganado?
Cumprimentos,
João Noronha
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