27.7.07

Evangelical Girls Are Easy

"...teen sexual behavior can be influenced ... But responsible behavior requires both "norms" and "networks." An intellectual belief in right and wrong is not sufficient. Teens require a community that supports their good choices, especially in times of testing and personal crisis...

Sociologist Peter Berger calls these networks "plausibility structures" -- sources of authority that do more than lecture or shame; they define the meaning of common sense. When institutions such as religious groups, families, government and the media send a strong and consistent message ... we have sometimes seen dramatic changes in behavior...

... individuals are not inherently good and so must be carefully civilized. They need social structures and networks that foster duty and discipline and define those commitments as common sense... In "The Quest for Community," Robert Nisbet warned: "Release man from the contexts of community and you get not freedom and rights but intolerable aloneness and subjection to demoniac fears and passions."
NOTA: O título do post é da autoria da National Review Online.

Bento XVI sobre o Vaticano II

Palavras pronunciadas em 24/07/2007 em Auronzo di Cadore:
"I, too, lived through Vatican Council II, coming to Saint Peter’s Basilica with great enthusiasm and seeing how new doors were opening. It really seemed to be the new Pentecost, in which the Church would once again be able to convince humanity. After the Church’s withdrawal from the world in the nineteenth and twentieth centuries, it seemed that the Church and the world were coming together again, and that there was a rebirth of a Christian world and of a Church of the world and truly open to the world.

We had such great hopes, but in reality things proved to be more difficult.

...

One side was of the opinion that this cultural revolution was what the Council had wanted. It identified this new Marxist cultural revolution with the will of the Council. It said: This is the Council; in the letter the texts are still a bit antiquated, but behind the written words is this “spirit,” this is the will of the Council, this is what we must do.

And on the other side, naturally, was the reaction: you are destroying the Church. The – let us say – absolute reaction against the Council, anticonciliarity...

... “If a tree falls it makes a lot of noise, but if a forest grows no one hears a thing,” during these great noises of mistaken progressivism and absolute anticonciliarism, there grew very quietly, with much suffering and with many losses in its construction, a new cultural passageway, the way of the Church.

... we must rediscover the great heritage of the Council, which is not a “spirit” reconstructed behind the texts, but the great conciliar texts themselves, reread today with the experiences that we have had and that have born fruit in so many movements, in so many new religious communities.

...

The Church is growing with new realities full of vitality, which do not show up in the statistics – this is a false hope; statistics are not our divinity – but they grow within souls and create the joy of faith, they create the presence of the Gospel, and thus also create true development in the world and society.

... In this combination of the humility of the Cross and the joy of the risen Lord, who in the Council has given us a great road marker, we can go forward joyously and full of hope."

25.7.07

Son glasses



Legendas alternativas:

  • O Papa medita os Mistérios LUMINOSOS.
  • I'll make you an offer you can't refuse: PRAY THE ROSARY.
  • "Desde que escrevi a carta aos Católicos chineses tive que passar a andar disfarçado."
  • "Desde que fiz publicar o Motu Proprio tive que passar a andar disfarçado e com guarda-costas ..."
  • ...
[Obrigado]

39.º Aniversário da Encíclica Humanae Vitae

Celebra-se hoje o 39.º aniversário da Carta Encíclica Humanae Vitae do Santo Padre Paulo VI sobre a Regulação da Natalidade.

Gosto muito desta Encíclica !

No próximo ano tenho a certeza que ocorrerão várias iniciativas para celebrar o 40.º aniversário desta Encíciclica profética. Talvez Eu também possa juntar-me às festividades !


P.S. O título do livro devia ser "Why Humanae Vita IS right".

Festa de S. Tiago, Maior

  • Biografia

  • Missa

  • Meditação

  • 23.7.07

    Challenging Feminist Orthodoxy

    "The claim that pro-choice advocates have a corner on compassion is belied by the reality of pro-life crisis pregnancy centers that offer women food, shelter, clothing and emotional support. These centers... serve women abandoned by a society that considers pregnancy a woman's choice -- and a woman's problem.

    ... Women are beginning to question the feminist establishment's reduction of the abortion debate to a zero sum game that pits a mother's welfare against that of her unborn child. ... most women choose abortion because they lack resources and social support. ... advocates for pregnant women's needs ... urge women to refuse to choose between having a future and having a baby.

    This pro-life, pro-woman message has attracted a strong following among young women who consider opposition to abortion a crucial component of defending women's dignity... [and consider] abortion a form of degradation too often pushed on women by men seeking to dodge responsibility.

    ... Although abortion-rights activists generally portray abortion as a routine medical procedure without moral import or lasting consequences, women in the Silent No More Awareness Campaign dispute that storyline with their own stories of post-abortion emotional trauma.
    "

    A Felicidade: a verdadeira e a contemporânea

    João César das Neves, no DN de hoje, A Maneira Certa de Perder a Vida:

    O nosso tempo é aquele em que mais gente se esforça por ganhar a sua vida. A ideologia dominante é a da realização pessoal, concretização de sonhos, promoção de projectos, carreiras, ideais, paixões. Manifestar a sua ambição é direito inalienável e decisivo de todos. Não a conseguir é miséria inaceitável... tudo assegura que afirmar-se pessoalmente, impor a sua personalidade, ter sucesso, ganhar a vida é o sumo bem. O prazer é erigido em valor supremo e objectivo primordial. Pelo contrário, o pior crime é limitar a expressão alheia, prejudicar os sonhos de juventude, impedir o florescimento da liberdade. Vivemos o tempo da exaltação do apetite.

    Desse ardor ingénuo e cândido surge o fiasco. Porque os sonhos são sempre inatingíveis... Assim, a grande maioria gasta a vida e desperdiça a felicidade em busca de uma ilusão a que julgava ter direito, mas que nunca atinge...

    Aqueles poucos que vislumbram o objecto dos seus anseios reconhecem que ele é muito mais pálido e desinteressante do que parecia à distância... Alguns desistem desanimados, outros buscam novas demandas, mas todos acabam desiludidos. Eles não sabem que o sonho, afinal, não comanda a vida.

    Esses são os afortunados, porque os mais infelizes alcançam e sentem-se realizados pelo que aspiravam. E então reduzem-se à tacanhez da sua ambição, ficam escravos dos seus desejos. Deixar-se deslizar para o marasmo do contentamento é viver a morte em vida. Confundindo embriaguez com felicidade, mergulham cegos no torvelinho do prazer asfixiante que, para se manter, exige novidades sempre mais perversas, acabando por devorar a própria identidade.

    A multidão desiludida vive a contemplação de uma elite de satisfeitos, suposta prova da ideologia dominante. Mas televisões e revistas não escondem as vidas esfarrapadas, a vacuidade e tolice dos famosos. Quanto mais se sabe sobre os poucos que dizem ter ganho a vida, tanto mais se mostra a perda radical que sofreram. Esta lição, sucessivamente repetida, tem de demonstrar alguma coisa, mesmo que a cegueira não o admita.

    Há dois mil anos foi dito: "quem quiser salvar a sua vida há-de perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa há-de salvá-la." (Mt 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; cf. Jo 12, 25)... Discípulos ou inimigos têm de reconhecer que Jesus Cristo viveu e morreu por esta frase.

    Os vários séculos confrontaram-se com a profecia da sua primeira parte, mas a dureza dos tempos recusava meios para a verificar. Só a prosperidade da sociedade do consumo e era da informação trouxe recursos para tentar a experiência, vendo depois as massas perderem-se na busca insana de salvar a vida. Hoje sabemos que, afinal, a frase não fixava um castigo. Limitava-se a constatar um erro: o egoísmo queima, o prazer cega, até o altruísmo seca.

    Felizmente, hoje como sempre, brilha também a verdade da segunda parte: o desprendimento e alegria da entrega total ao Bem absoluto. A felicidade de se saber, como todos, pessoalmente dilecto da divindade, que é Amor. A sabedoria na vida está em renunciar alegremente a si mesmo e aceitar cada passo, sorver cada percalço desta Via Sacra como um dom eterno.

    22.7.07

    (Fato Domingueiro)

    Compêndio do Catecismo, n.º291:
    "Para receber a sagrada Comunhão é preciso estar plenamente incorporado à Igreja católica e em estado de graça, isto é, sem consciência de pecado mortal. Quem tem consciência de ter cometido pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes da Comunhão. São também importantes o espírito de recolhimento e de oração, a observância do jejum prescrito pela Igreja e ainda a atitude corporal (gestos, trajes), como sinal de respeito para com Cristo."
    Se uso fato e gravata em reuniões importantes ou com gente de fora, não faz sentido demonstrar menos respeito quando recebo o Senhor. Preferia ter-me lembrado disto no Inverno, mas pronto.

    P.S. Permitida a utilização da F-word.

    S. Maria Madalena

    Este é o dia em que a Igreja recorda S. Maria Madalena.

    Ora Pro Nobis.

    21.7.07

    Canavial danificado - área protegida

    Da meditação sobre o Evangelho da Santa Missa de hoje (Mt 12, 14-21):
    "... cana rachada foram Maria Madalena, e o bom ladrão, e a mulher adúltera... O Senhor recuperou Pedro, que estava despedaçado pelas negações da sua mais triste noite, e nem sequer lhe fez prometer que não voltaria a negá‑Lo. Limitou‑se a perguntar‑lhe: Simão, filho de João, amas‑me?

    ... devemos ter presente que “servir os outros, por Cristo, exige que sejamos muito humanos [...]. Temos que compreender a todos, temos que conviver com todos, temos que desculpar a todos, temos que perdoar a todos”.

    Por outro, “não diremos que o injusto é justo, que a ofensa a Deus não é ofensa a Deus, que o mau é bom. No entanto, perante o mal, não responderemos com outro mal, mas com a doutrina clara e com a ação boa: afogando o mal em abundância de bem (cfr. Rom XII, 21). Assim Cristo reinará na nossa alma e nas almas dos que nos rodeiam”.

    20.7.07

    O DIREITO À VIDA (E À DEMOCRACIA) DAS CRIANÇAS MADEIRENSES

    Hoje no DN, a Fernanda Câncio escreveu o artigo que se encontra acima linkado. O ponto de vista seguido no artigo é o da Mãe madeirense que aborta o seu filho.

    Se o ponto de vista da Fernanda fosse o do filho abortado, o artigo ficaria assim (as poucas alterações estão assinaladas em maiúsculas):
    "Imagine que é UMA CRIANÇA NAS PRIMEIRAS 10 SEMANAS DE GESTAÇÃO (se JÁ FOI, não tem de imaginar). Imagine que a sua Mãe engravidou e quer abortar. Imagine que ela se dirige ao único hospital da Madeira com serviço de obstetrícia e que lhe dizem que a lei aprovada e em vigor em todo o território nacional que lhe permitiria abortar por sua opção até às 10 semanas ESTÁ a ser aplicada na Região Autónoma por decisão do Governo Regional. Imagine que liga para o Ministério da Saúde, em Lisboa, e lhe explicam que não podem fazer nada por si – NÃO TEM QUALQUER OPÇÃO SENÃO SER ABORTADO.

    IMAGINE QUE NÃO TEM QUAISQUER RECURSOS… Imagine que morre. Agora já não imagina nada. Imaginemos nós então que a sua família decide proceder contra os responsáveis pelo CUMPRIMENTO da lei. Quem serão? O Governo da Madeira, que A CUMPRIU alegando a sua CONSTITUCIONALIDADE? O Governo da República, que fez uma lei resultante de um referendo? O presidente da República, o tal que é "de todos os portugueses", supremo garante da legalidade democrática, que não abriu a boca sobre o assunto até agora?

    No jogo do empurra que se adivinha num caso como esse, talvez se concluísse que A CRIANÇA madeirense morreu porque teve o azar de NÃO nascer e viver na Madeira e de ser governada por pessoas muito mais preocupadas com afirmações de poder que com a vida dos seus governados. Que teve, em suma, o azar de NÃO nascer e morrer num país onde a ideia da defesa da democracia, numa altura em que tanto se fala de "autoritarismos" e de "perigo para o regime das liberdades e garantias", passa claramente por coisas muito mais importantes que as liberdades e garantias DOS madeirenses e o seu direito constitucional À VIDA e à igualdade. Um país em que as provocações, desmandos e abusos de um governante … se tornaram tão habituais que ninguém parece saber como reagir-lhes - e ninguém parece ralar-se com isso. Um país, digo eu - se é que ainda somos de facto um."

    HOMELESS

    O Pedro Picoito fez a caridade de ensinar ao ignorante autor destas linhas algumas verdades sobre a vida política nacional.

    O comentário que deu origem ao post do Pedro Picoito partia de uma evidência: neste momento todos os partidos parlamentares tendem a adoptar uma “agenda cultural” libertária. Recorde-se que, durante o último referendo, apenas o CDS pré-Paulo Portas e pré-ala liberal apoiou o activamente o “Não”.

    Verifica-se, de facto, uma falta de diversidade e pluralismo em relação às “causas fracturantes” entre os partidos representados no Parlamento. As únicas posições oficiais representadas encontram-se no espectro “apoia entusiástico” – “indiferença cúmplice”.

    É certo que, neste momento, as opiniões "culturalmente conservadoras" sobre estas matérias serão minoritárias. Só que, aparentemente, nem todas as opiniões minoritárias são iguais…

    Nalguns casos, são protegidas, promovidas e activamente representadas. Noutros casos pretende-se expulsá-las para além das fronteiras do “debate civilizado”. É o caso da das opiniões “ultra-conservadoras” (i.e. aquilo que era o Mainstream há 10 anos atrás).

    É uma táctica política excelente. O único problema é que se arrisca a ter sucesso. Quando uma minoria deixa de sentir representada pelos partidos tradicionais, existe tendência para o aumento do voto de protesto, normalmente em partidas das franjas. É um fenómeno que se verificou em outros países da Europa, com os resultados conhecidos.

    Ora, cerca de 1,5 milhões de eleitores votaram “Não” no último referendo. (Curiosamente, a percentagem de votantes no “Não” (40%) foi superior à soma da percentagem de votos obtidos pelo CDS e pelo PSD nas últimas legislativas (36%), enquanto que a percentagem de votantes no sim foi quase idêntica à soma dos votos do PS, PCP e Bloco de Extrema Esquerda).

    Suponhamos que existe uma pequena percentagem destes votantes (5%, por exemplo), que se sentem suficientemente motivados para votar de acordo com as suas posições sobre a vida e a família. Suponhamos ainda que esta minoria está minimamente organizada e pode, desta forma, ser mobilizada eleitoralmente. Estas hipóteses são bastante conservadoras… ;)

    Suponhamos ainda que existe um empreendedor político suficientemente astuto para compreender que existe aqui uma “oportunidade de negócio político” – sempre seriam cerca de 75.000 votos…

    Recorde-se que o Louçã começou, há 8 anos, com menos do que isso … [UPDATE]Nas eleições legislativas de 1995, a soma dos votos da UDP e do PSR - a base eleitoral do BE no momento da sua criação -, foi de 71.514 votos[/UPDATE]

    19.7.07

    O primeiro casamento

    Algumas notícias exigem uma "info-grafia":
    "O director de programas da RTP, Nuno Santos e Andreia Vale, jornalista da SIC, vão casar-se este fim-de-semana. A união... será apenas firmada pelo Registo Civil, apesar de se tratar do primeiro casamento de ambos. Nuno Santos viveu com Vera Roquete, sub-directora de audiências da RTP, e Andreia Vale tem um filho, com quatro anos, do jornalista Carlos Rodrigues, actualmente na direcção da SIC."

    in DN, 19/07/2007, p. 63
    Já agora: o Bernard Goldberg, autor do best-seller Bias-A CBS Insider Exposes How the Media Distort the News, disse uma vez que:
    "I've never said these media elites are bad guys or evil guys. I've specifically said there is no conspiracy. They're living their lives in this comfortable bubble with like minded people in it. It includes the people in their newsroom with like-minded liberal people in it and after a while they think everything to the right-of-center is conservative and everything to left-of-center is middle of the road."

    Para quem ainda não foi de férias porque o chefe não deixou

    «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.»

    Mateus 11,28-30

    18.7.07

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (7)

    [posts anteriores desta série]

    Apresentam-se de seguida e resumidamente os vários níveis do Magistério da Igreja, os vários graus de adesão exigidos aos fiéis e o objecto do Magistério (O Cardeal Ratzinger fez publicar em tempor este comentário sobre esta matéria, sendo que alguns poderão achar que a explicação dele é melhor do que a minha...). No post seguinte procurar-se-á determinar em que nível do Magistério se integra a Doutrina do justo Salário e qual o grau de adesão que esta exige aos fiéis.

    1. Os vários níveis do Magistério e os graus de adesão exigidos aos fiéis

      • O Magistério solene ou extraordinário da Igreja (Catecismo, n.º891)

        O magistério solene ou extraordinário da Igreja é exercido pelo "Romano Pontífice em razão do seu ofício de cabeça do colégio episcopal, sempre que, como supremo pastor dos fiéis cristãos, que deve confirmar na fé os seus irmãos (cfr. Lc. 22,32), define alguma doutrina em matéria de fé ou costumes..."

        Exemplos do exercício deste magistério são a definição dos Dogmas da Imaculada Concepção de Maria pelo Papa Pio IX (1854) e da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria ao Céu pelo Papa Pio XII (1950). As canonizações serão igualmente manifestações do magistério pontíficio extraordinário.

        Este Magistério solene ou extraordinário é exercido igualmente pelo "colégio episcopal, quando este exerce o supremo magistério em união com o sucessor de Pedro, sobretudo num Concílio Ecuménico". As definições feitas pelo Concílio de Trento para reafirmar a Fé Católica contra as dotrinas protestantes (1545/1563) ou a definição do dogma da infalibilidade papal no Concílio Vaticano I (1870) são exemplos do exercício deste Magistério.

        "Quando a Igreja, pelo seu Magistério supremo propõe alguma coisa para crer como seno revelada por Deus, como doutrina de Cristo, deve-se aderir na obediência de a tais deinições".

      • O Magistério universal ordinário (Catecismo, n.º 2034 e Lumen Gentium, n.º25)

        O Magistério ordinário universal é exercido pelos Bispos "sempre que, embora dispersos pelo mundo mas unidos entre si e com o sucessor de Pedro, ensinam autenticamente matéria de fé ou costumes concordando em que uma doutrina deve ser tida por definida... devendo-se aderir com fé às suas definições".

        Esta forma de magistério é, igualmente, infalível.

        A maioria dos ensinamentos morais da Igreja são ensinados e definidos desta forma.

        Exemplos disto são as doutrinas sobre o aborto e a eutanásia (Vd. Evangelium Vitae n.ºs 62, 659).

      • Magistério ordinário (Catecismo, n.º892, Lumen Gentium, n.º25)

        "A assistência divina é também dispensada aos sucessores dos Apóstolos, quando ensinam em comunhão com o sucessor de Pedro, e de modo especial ao Bispo de Roma, pastor de toda a Igreja, quando, mesmo sem chegarem a uma definição infalível e sem se pronunciar de «modo definitivo», no exercício do seu Magistério ordinário, propõem uma doutrina que leva a uma melhor inteligência da Revelação em matéria de fé e costumes. A este ensinamento ordinário devem os fiéis «prestar o assentimento religioso do seu espírito», o qual embora distinto do assentimento da fé, é, no entanto, seu prolongamento".

        A constituição dogmática sobre a Igreja do Concílio Vaticano II - Lumen Gentium (n.º25), descreve assim esta forma de magistério:
        "Ensinando em comunhão com o Romano Pontífice, [os bispos] devem por todos ser venerados como testemunhas da verdade divina e católica... os fiéis devem conformar-se ao parecer que o seu Bispo emite em nome de Cristo sobre matéria de fé ou costumes, aderindo a ele com religioso acatamento. Esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar."
        A propósito da índole dos documentos e do modo de falar, o Papa Pio XII, na Encíclica Humani Generis (n.º20)afirma:
        "Nem se deve crer que os ensinamentos das encíclicas não exijam, por si, assentimento, sob alegação de que os sumos pontífices não exercem nelas o supremo poder de seu magistério. Entretanto, tais ensinamentos provêm do magistério ordinário, para o qual valem também aquelas palavras: "Quem vos ouve a mim ouve" (Lc 10,16); e, na maioria das vezes, o que é proposto e inculcado nas encíclicas, já por outras razões pertence ao patrimônio da doutrina católica. E, se os romanos pontífices em suas constituições pronunciam de caso pensado uma sentença em matéria controvertida, é evidente que, segundo a intenção e vontade dos mesmos pontífices, essa questão já não pode ser tida como objeto de livre discussão entre os teólogos."
    2. Objecto do Magistério

      O Magistério pronuncia-se sobre:

      • A Fé e a Moral (Catecismo, n.º891);

        Em particular na área da moral, compete à Igreja "anunciar sempre e em toda a parte os princípios morais, mesmo os de ordem social, bem como emitir juízo acerca de quaisquer realidades humanas, na medida em que o exigirem os direitos fundamentais da pessoa humana ou a salvação das almas" (Catecismo, n.º2032).

      • Os preceitos da lei natural.

        "A autoridade do Magistério estende-se também aos preceitos específicos da lei natural,porque a sua observância, exigida pelo pelo Criador, é necessária à Salvação. Ao lembrar as prescrições da lei natural, o Magistério da Igreja exerce uma parte essencial da sua função prófética, de anunciar aos homens o que eles são na verdade e de lhes lembrar o que devem ser perante Deus." (Catecismo, n.º 2036)


      Na Quadragesimo Anno, o Papa Pio XI refere que a Igreja não se pronuncia sobre "assuntos técnicos, para os quais lhe faltam competência e meios, mas em tudo o que se refere à moral. Dentro deste campo, o depósito da verdade que Deus Nos confiou e o gravíssimo encargo de divulgar toda a lei moral, interpretá-la e urgir o seu cumprimento oportuna e importunamente, sujeitam e subordinam ao Nosso juízo a ordem social e as mesmas questões económicas."

    O site da Cidade-Estado do Vaticano

    As várias webcams disponíveis mostram imagens das várias regiões deste vasto país.

    Chavez replaces Virgin Mary with Che Guevara

    ... Lt. Col. Hugo Chávez Frías, has determined that after August 5th, when the government takes over the management of the hospital in Maracaibo, its name will be changed from Hospital Virgen de Coromoto to that of Argentinean guerrilla fighter, Ernesto Che Guevara, who executed hundreds of Cubans in Havana. As everyone knows, Guevara was a fundamental factor in the entrenchment of the fierce Marxist-Leninist tyranny of Fidel Castro

    [Fonte: Diario las Américas]
    Esta medida é perfeitamente compatível com a doutrina chavista. Quem quer construir o céu na terra, tem de substituir Deus pelo Homem e a Bem-Aventurada Virgem Maria pelo Che Guevara.

    Isto, aliás, nem me choca muito porque é para mim claro que a Virgem Maria não quer ver o seu nome associado a projectos comunistas.

    Este exemplo até deveria ser seguido cá em Portugal. Por exemplo, tendo em conta as monstruosidades legais que lá se praticam, faria todo o sentido que o Hospital de S. Maria mudasse de nome.

    17.7.07

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (6)

    [posts anteriores desta série]

    No mais recente post desta série, contava-se que o Prof. Woods chamou em seu auxílio os autores da "Escola de Salamanca" - e eles de facto, sendo Sacerdotes, poderiam ajudá-lo... Mas não foi o caso.

    Woods dedica-se de seguida a evitar preemptivamente a comparação com a dissidência progressista:
    "É por vezes alegado que os apoiantes Católicos do mercado de trabalho livre não são diferentes daqueles Católicos que se afastam dos ensinamentos oficiais da Igreja sobre os tópicos controversos do aborto, ética médica e sexualidade humana. Esta acusação não tem qualquer mérito: o Católico defensor do mercado livre tipicamente objecta apenas sobre os aspectos instrumentais e não sobre os aspectos substantivos dos ensinamentos sociais... pretende atingir os mesmos bons resultados que os Papas pretendem, mas teme que os meios sugeridos para atingir esses fins não os concretizem." (p. 92)
    Resumindo, nesta fase do seu artigo Woods argumenta que a Doutrina do Salário Justo é um mero ensinamento prudencial porque:

    • Diz respeito aos meios particulares para atingir um fim (p. 93);

    • A Igreja não tem competência para se pronunciar sobre meios alternativos para atingir um fim, desde que moralmente legítimos (pp. 93-94). Nestes casos a Igreja deve dar lugar aos especialistas e à gente com estudos na matéria.

    • A infalibilidade papal não se estende às "afirmações empíricas e teóricas sobre a forma como a economia funciona (pp. 94-95)" (i.e. políticas contraprodutivas não podem ser infalíveis).
    Logo, perante circunstâncias concretas, o Católico deverá escolher o melhor meio para atingir o fim moralmente correcto, recorrendo ao seu "julgamento informado" e à sua consciência. (É impressão minha ou existem muitas semelhanças entre este argumento e as posições daqueles que defendem a contracepção ?)

    Creio que será útil, em primeiro lugar, apresentar as várias categorias do Magistério da Igreja e a posição que os fiéis devem ter em relação a ele. De seguida poder-se-á estudar em que categoria se integra a Doutrina do Justo Salário. A equivalência entre Woods e os dissidentes progressistas e as restantes questões serão analisadas de seguida.

    A verdadeira ordem da fénix

    Em 2002, o Partido Republicano conquistou finalmente o Senado americano, passando assim a dominar as duas câmaras do Congresso (os Republicanos tinham conquistado a Câmara dos Representantes em 1994 com o célebre Contrato com a América).

    Em 2004, George W. Bush conquistou o seu 2.º mandato presidencial, desta vez com uma maioria confortável.

    Os comentadores falaram então de "maiorias permanentes" e aconselharam o partido democrata a mudar os seus valores e as suas políticas; os democratas tinham de ser mais conservadores, caso contrário, condenavam-se à irrelevância.

    Em 2006 aconteceu aquilo que apenas dois anos antes era considerado impossível: os democratas passaram a dominar o Congresso e a Câmara dos Representantes e são os Republicanos que se preparam para nomear um candidato pro-choice.

    Como é que se explica tamanho erro de análise?

    Às vezes os analistas atribuem aos eleitores as motivações e até os desejos dos próprios analistas. No caso do grande descalabro republicano, leiam-se os artigos de opinião do Wall Street Journal e da NRO da altura - Wishful Thinking ! Mas a verdadeira catástrofe ocorre quando os dirigentes partidários confundem estas vozes com as vozes do seu eleitorado. São vozes que fazem eco nos media, é verdade, mas quantos eleitores é que lhes dão ouvidos ? E sobretudo quanto votos é que elas representam ?

    Outra possível causa para estes erros de análise resulta de se tomar um episódio particular por uma tendência. Circunstâncias particulares são responsáveis por resultados atípicos.

    Noutros casos, subestima-se a capacidade de reacção dos derrotados e desvalorizam-se os pés de barro dos vencedores.


    Recordei-me deste episódio recente da história americana a propósito das análises que se vão fazendo nos media e nos blogs sobre "a direita", na sequência das 'intercalares' lisboetas.

    16.7.07

    A noite em que todos os partidos foram pequenos

    António Costa tornou-se Presidente da Câmara de Lisboa com o voto de 11% dos eleitores inscritos. A democracia, a quem alguns chamam a ditadura da maioria, está a transformar-se na ditadura da minoria !

    Ontem à noite todos os partidos foram pequenos. Neste momento a democracia portuguesa é apenas constituída por pequenos partidos e por micro-partidos.

    Mas esta nuvem de pequenos partidos, com os seus líderes minúsculos, não apresenta grande diversidade.

    Por exemplo, quem representa os 1,5 milhões de eleitores que votaram "Não" no Referendo de 11 de Fevereiro ?

    À esquerda não vale a pena falar.

    À direita, o PSD absteve-se no Referendo e utilizou o dinheiro que poupou na campanha do "Não" para financiar a campanha do Negrão. Além disso, a votação da Lei do Aborto na Assembleia da República demonstrou que não se pode confiar o nosso voto àquela gente. Sabe-se lá o que eles vão fazer com ele ! [Nota: Negrão fez um excelente início de campanha para as próximas autárquicas em Setúbal. Com grande probabilidade, Negrão será o próximo Presidente da Câmara de Setúbal].

    O CDS de Ribeiro e Castro portou-se bem durante o Referendo. Eu até estava a preparar-me para votar, pela primeira vez, neste Zé. Mas desde que o Portas e a "ala liberal" começaram a 'modernizar' o CDS ...

    Não terei sido o único a pensar assim. Nos dias que antecederam as eleições intercalares de Lisboa recebi vários e-mails de pessoas ligadas a movimentos pró-vida e pró-família manifestando apoio a Carmona. Será que isto afectou a votação em Carmona e no CDS ? Não sabemos. Mas eu conheço gente que ficou em Lisboa para tentar eleger o 4.º vereador da lista de Carmona (um ex-presidente da APFN).

    Aliás, para quem está de fora (como Eu), parece que Carmona procurou coligar vários grupos de interesse organizados - uma estratégia muito americana e moderna. Se assim foi, os 'amadores' que se reuniram à volta de Carmona portaram-se como verdadeiros profissionais da política.


    Tendo descartado a possibilidade de votar nos partidos parlamentares, restam-me, neste ponto, duas opções: abstenção ou voto num micro-partido.

    Como, infelizmente, não me é permitido desistir, vou votar num micro-partido. E votar num micro-partido até tem uma grande vantagem: os micro-partidos nunca têm oportunidade de desiludir os seus eleitores.

    Entre os partidos fora do arco parlamentar existe apenas um que se destaca pela positiva nestas questões da Vida e da Família. Infelizmente, esse partido assusta as crianças pequenas como Eu.

    Todos os restantes micro-partidos são iguais aos seus irmãos mais crescidos.

    Portanto, resta-me esperar que daqui até às próximas legislativas surja um micro-partido em que eu possa votar sem ter problemas de consciência.

    Vá lá ! Só faltam 4.999 assinaturas.

    15.7.07

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (5)

    [posts anteriores desta série]

    O Evangelho da Missa de Sábado (Mt 10, 24-33) parecia ter algo a ver com este pequeno empreendimento em que estou envolvido mas, para que não restassem dúvidas, a meditação sobre este excerto do Evangelho dizia:
    "Na sociedade em que vivemos, teremos que falar com firmeza – com a segurança de quem tem a verdade do seu lado – de muitos temas de grande transcendência para a família, para a sociedade e para a dignidade da pessoa: indissolubilidade do casamento, liberdade de ensino, doutrina da Igreja sobre a transmissão da vida humana, dignidade e beleza da castidade, sentido grandioso do celibato e da virgindade por amor de Cristo, conseqüências da justiça social em relação aos gastos perdulários ou simplesmente desnecessários, aos salários injustos" (Falar com Deus, vol. 3, 18 - Amor á Verdade).
    Já agora, consultado o travesseiro, descobre-se que um dos argumentos apresentados no último post pode ser transformado em quasi-"soundbite":
    Não é o poder negocial que define o salário justo; é o salário justo que permite identificar situações de falta de poder negocial.
    Mas continuando, tratemos das alegadas opiniões dos escolásticos espanhóis !

    A ESCOLA DE SALAMANCA: proto-libertarians católicos do séc. XVI ?

    Após ter afirmado que a doutrina do salário justo era recente, incoerente e baseada factos dúbios, Woods queixa-se de que os Católicos, quando confrontados com as suas opiniões, apelam sempre à autoridade dos Papas. O que faz então Woods ? Apela para o exemplo (e a autoridade) ds escolásticos espanhóis de quinhentos:
    "Os escolásticos espanhóis do séc. XVI adoptaram uma posição geralmente laissez-faire em relação aos salários, argumentando que nenhum salário a que o trablhador desse o seu consentimento podia ser injusto... Ninguém na altura reagiu com horror, ou declarou que esta posição estava radicalmente em contraposição com a Tradição Católica" (p. 92).
    Alguns membros da "escola austríaca de economia" gostam de apresentar entre os seus antepassados os membros da escola de Salamanca, os mais importantes dos quais são sacerdotes dominicanos e jesuítas espanhóis e portugueses - teólogos e juristas. É uma descoberta relativamente recente, não tendo ainda sido apresentada a forma como os esparsos escritos económicos destes autores infuenciaram os "austríacos"; o fundador da "escola austríaca de economia" - Carl Menger - não os menciona nas suas obras. Por outro lado, não se percebe muito bem qual é a utilidade de apelar para os trabalhos destes autores, embora num livro recente se diga que "os ensinamentos da Escola de Salamanca podem... contribuir precisamente para estabelecer uma ponte entre liberalismo e cristianismo, realidades que estão hoje, e em larga medida afastadas e muitas vezes em oposição" (Escola Austríaca - Mercado e criatividade empresarial, p. 35).

    O argumento apresentado por Woods é o seguinte:

    1. Os "escolásticos espanhóis" pensavam como eu;
    2. Ninguém perseguiu os "escolásticos espanhóis" por causa dessas opiniões;
    3. Logo, deixem de me chamar dissidente (ou mesmo herético) !
    Investiguemos.

    Em primeiro lugar, convirá dizer que quando os "austríacos" falam dos escolásticos estão a referir-se apenas a alguns autores desta escola.

    Por outro lado, e como se poderá ler num post da minha autoria publicado no Insurgente há alguma tempo, os "austríacos" apresentam o pensamento dos escolásticos de forma parcial(Vd. n.º2 aqui) e anacrónica (Vd. n.º3 aqui) - no que respeita à teoria do "preço justo", faz-se uma leitura moderna e distorcida do conceito escolástico de ‘justo valor’.

    Curiosamente (e eventualmente por falta minha), fora de sites afectos a esta facção da "escola austríaca", não encontrei nenhuma defesa do salário de mercado pelos escolásticos - embora existam várias referências aos preços de bens finais, de mercadorias e do capital. Pelo contrário, encontrei mesmo alguns autores que afirmam que a posição dos escolásticos espanhóis sobre o "justo salário" é compatível com os escritos de Leão XIII.

    Gostaria de sublinhar que alguns escolásticos espanhóis defendiam ideias contrárias à doutrina da Igreja (Vd. n.º1 aqui) e foram advertidos pelos seus superiores por esse facto. Se não houve nenhuma condenação da sua doutrina do salário - a existir - poderá ser talvez porque os contributos desta escola sobre esta matéria não eram muitos importantes no contexto dos seus contributos teológicos (Vd. questão do molinismo), ou porque não era um contributo sistemático (Escola Austríaca - Mercado e criatividade empresarial, p. 28) ou porque a Igreja não quis partir a cana rachada, como ocorre com muita frequência ...

    Mas suponhamos que, de facto, estes autores eram proto-"austríacos" que, embora defendendo ideias heterodoxas sobre a questão do salário justo, foram tolerados pela Igreja. Será que isto ajuda Woods ?

    Não me parece porque, em primeiro lugar e infelizmente, não existem falta de exemplos de teólogos dissidentes que não foram directamente sancionados pela Igreja e não é por isso que as doutrinas que defendem são mais aceitáveis. Em segundo lugar, entre Woods e os Escolásticos distam cerca de 500 anos (Duh !). Durante esses anos pelo menos 7 Papas re-afirmaram a Doutrina do Salário Justo num contexto económico moderno onde esta questão tem uma importância acrescida.

    Esta repetição frequente da mesma doutrina em documentos da índole das Encíclicas reforça decisivamente a pretensão daqueles que consideram que à Doutrina do Salário Justo deve ser "prest[ada] sincera adesão". Esta questão será desenvolvida no post seguinte.

    Comentários da Bíblia de Navarra

    Evangelho do Dia com os comentários dos professores de Teologia da Universidade de Navarra (Retirados da Bíblia Sagrada - Vol. I, editora Theologica, Braga - Portugal).

    14.7.07

    Guia para discernir serenamente entre o perfume de Deus e o odor do diabo:

    "Critérios para distinguir, quando alguém fala sobre a Igreja, se age de acordo com Deus ou com o demônio".

    Mea culpa, mea culpa.

    Confessores

    "Sob o nome de "confessores" a Igreja honra os santos que, sem terem sofrido o martírio de sangue, com a sua vida deram testemunho da fé católica. Embora todo o cristão deva estar disposto para o martírio, a vocação cristã ordinária é a de ser confessores da fé."

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (4)

    [posts anteriores desta série]

    No post anterior deveria ter mencionado o estatuto da Doutrina do justo Salário: será um mero juízo prudencial ? Reparo agora será mais útil referir este aspecto num dos posts seguintes. Por hoje, dedicar-me-ei a a tratar o tema do "poder negocial dos trabalhadores".

    A QUESTÃO DO PODER NEGOCIAL DOS TRABALHADORES

    A terceira objecção levantada por Thomas Woods à Doutrina do Justo Salário está relacionada com a questão do inferior poder negocial dos trabalhadores. Woods defende que a doutrina do justo salário baseia-se na 'pressuposição' de que os trabalhadores têm um inferior poder negocial face aos seus patrões e considera que esta 'pressuposição' é "economicamente dúbi[a]". É matéria de facto "aparentemente passíve[l] de debate e não um artigo de Fé e Moral".

    Como se pode verificar, este argumento pode ser estruturado da seguinte forma:

    1. A doutrina do justo salário baseia-se no facto de que os trabalhadores possuem um inferior poder negocial. Woods cita a Rerum Novarum (embora se engane nos n.ºs dos parágrafos) e afirma que, apesar da linguagem ser antiquada, o que o Papa realmente quer dizer em linguagem moderna é que os trabalhadores têm um inferior poder negocial (ver nota 1, p. 91). Woods consegue finalmente descobrir um documento da Igreja que menciona a questão do inferior poder negocial em 1984, numa declaração dos Bispos Americanos citada num livro de outro autor libertarian e correligionário de Woods no Mises Institute (nenhum dos dois documentos está online TTBOMK).
    2. A existência de um inferior poder negocial dos trabalhadores é matéria de facto que a evidência disponível não permite confirmar.
    3. Logo, a Doutrina do Justo Salário não é [ou não deve ser] artigo de Fé e Moral.
    Será que a Doutrina do Justo Salário se baseia na existência de um suposto inferior poder negocial dos trabalhadores ?

    Como se explicou no post anterior (ver n.º3), a Doutrina do Justo Salário baseia-se na justiça natural, e também na solidariedade humana e na caridade. Esta Doutrina interpela, em primeiro lugar, o empresário [os salários que pago são justos ? Se não são justos, posso pagar salários mais elevados sem comprometer o serviço prestado, a sobrevivência da empresa, a remuneração do capital investido ? Estou a remunerar o capital acima do nível dos investimentos com igual grau de risco ou acima do nível que garante a subsistência da minha família e do nível que permite captar mais fundos ? Ao fixar este nível de salários, serão as minhas intenções moralmente legítimas ou serão egoístas ?]. Esta Doutrina interpela também e sucessivamente a Sociedade e o Estado.

    O empresário que pretender praticar salários injustos comete um pecado grave, independentemente de existir ou não existir um fraco poder negocial por parte dos trabalhadores.

    Ao pretender reduzir a Doutrina do Justo Salário a uma mera questão técnico-económica - o poder negocial -, Woods isenta o empresário de qualquer culpa pessoal e coloca a questão dos salários injustos para além da moral.

    Woods também erra ao afirmar que, ao exporem a doutrina sobre o justo salário, os Papas querem realmente referir-se ao conceito de poder negocial, tendo apenas dificuldade em exprimir-se em linguagem moderna ('modern terms'). De facto, a linguagem da Rerum Novarum citada por Woods é sucessivamente repetida pelos documentos do magistério, nomeadamente nos anos 80 e 90 (Vd. referências a Centesimus Annus e ao Catecismo no post anterior, p.ex.). O que os Papas querem realmente dizer é que "os trabalhadores merecem o seu sustento" (Mt 10, 7-15) e que este direito se sobrepõe a qualquer acordo entre as partes. A única linguagem aparentemente antiquada que os Papas utilizam é a referência ao pecado pessoal...


    Após pretender reduzir a questão do Justo Salário a um mero problema técnico-económico - o baixo poder negocial dos trabalhadores -, Woods afirma que esse problema não existe. A defesa desta asserção é remetida para um artigo publicado pelo próprio Woods no site do Mises Institute. Forgotten Facts of American Labor History, é assim que se chama o artigo de Woods. Não é um artigo académico. É um texto escrito em tom polémico - um artigo de opinião -, em que Woods discorre sobre um dos 'mitos' da história económica americana do séc. XX. A dado passo, Woods, citando outro autor afirma:
    "A ideia de que os trabalhadores não sindicalizados têm uma desvantagem negocial inerente em relação aos empregadores é a base do apoio concedido por muitos ao sindicalismo ... Mas essa desvantagem é um mito. O poder negocial do trabalhador depende das suas alternativas. Se um trabalhador, ou trabalha para o empregador A, ou não trabalha ... o trabalhador tem pouco poder negocial... [esta situação] não tem sido um factor significativo no mercado de trabalho americano desde a introdução e utilização alargada do automóvel"
    Woods refere, igualmente, outros factos que contrariam o argumento do baixo poder negocial dos trabalhadores: os salários reais aumentaram significativamente nas décadas anteriores ao início do processo de sindicalização - fruto dos investimentos em capital humano, os trabalhadores especializados ganhavam mais que os indiferenciados, os salários dos trabalhadores americanos eram superiores aos salários dos trabalhadores europeus, continente onde o grau de sindicalização era maior.

    E tudo isto é plausível e até verdadeiro.

    Mas reparemos bem no que Woods está a afirmar: Woods refere-se à evolução dos salários ao longo do tempo e às diferenças de salários entre diferentes tipos de trabalhadores. O que falta ? Falta a referência ao nível de salários. Esta questão é essencial para determinar a validade da Doutrina do Justo Salário. O único facto empírico que poderia eventualmente colocar em causa esta doutrina seria (na minha modesta opinião) o facto de todos os salários livremente acordados no mercado assegurarem sempre o sustento do trabalhador e da família (ver post anterior), especialmente dos mais pobres.

    Sobre isto Woods nada diz. Aliás, nem podia dizer tendo em conta que Woods descreve a realidade do país dos "working poor", dos "food stamps" e dos "Mcjobs" (e eu até acho que é melhor ser 'working poor' do que 'poor & unemployed' e que é melhor ter um 'mcjob' do que não ter nenhum). Em Portugal, poderíamos referir as "gerações recibo verde e call centre".

    Também não é exactamente claro porque razão é que a realidade americana do séc. XX (1) seria repetível no futuro ou representativa do passado e (2) aplicável a outras realidades institucionais onde possam existir, nomeadamente, barreiras à mobilidade.

    Tendo em conta que a defesa apresentada de Woods se reduz a 4 parágrafos num texto longo sobre a questão do sindicalismo, procurei outras fontes que pudessem de alguma forma sustentar a posição de Woods [nem a validade da Doutrina Social da Igreja depende do poder dos meus fracos argumentos, nem a posição libertarian depende da ignorância de Woods (e vice-versa)].

    No mesmo site do Mises Institute existe um artigo intitulado Do Capitalists Have Superior Bargaining Power? escrito, desta vez, por um profissional - um professor de economia. Mas este artigo também não é muito útil. O autor afirma que "[s]e um empregador tentar explorar ... os seus empregados num mercado de trabalho concorrencial e capitalista, apenas criará uma oportunidade de lucro para os seus rivais, prejudicando assim o seu próprio negócio." O autor conclui assim que a exploração dos trabalhadores ocorrerá apenas num sistema caracterizado pela existência de um cartel [sic] a nível de empregadores e que, na prática, esse sistema só existe em países socialistas (só em países socialistas os trabalhadores serão explorados !)

    E isto também é plausível e possivelmente verdadeiro. Só que, como bom economista, as conclusões do autor dependem de uma hipótese. Essa hipótese é a existência de um mercado de trabalho concorrencial. Pergunto Eu: Será que todos os mercados de trabalho são concorrenciais ? E será que o salário pago num mercado concorrencial garante sempre o sustento digno do trabalhador e da sua família ? Pensemos por exemplo no caso dos trabalhadores indiferenciados, dos imigrantes ilegais ou dos trabalhadores em indústrias decadentes.


    Após evitar considerar os aspectos morais associados ao pagamento do salário, e após criticar o conceito de inferior poder negocial dos trabalhadores sem nunca se promunciar sobre o nível de salários e o sustento do trabalhador e da sua família, Woods concluiu que a Doutrina do Salário Justo não deveria ser matéria de Fé e Moral. Mas, como se viu acima, Woods não fez um esforço sério para lidar com os ensinamentos sociais da Igreja.


    Dois desabafos, fruto do adiantado da hora

    Dado o adiantado da hora permitir-me-ei, ainda, um pequeno desabafo pouco Cristão: até ao momento, nenhum os argumento de Woods é defensável. Eu diria mesmo que Woods aufere um salário injusto porque o seu trabalho não cumpre os padrões mínimos da actividade académica. Desde há muito que a academia se transformou na continuação do combate político por outros meios. É certo que a "ocupação de espaços" e a "longa marcha pelas instituições" é uma táctica esquerdista de inspiração gramciana. Mas os conservadores seguiram o mesmo caminho desde que descobriram que "ideas have consequences". Os libertarians embora com maiores dificuldades - financeiras e de efectivo - lá seguem o mesmo caminho.

    Houve um tempo em que o ideal académico era a procura e a transmissão da verdade...


    Em segundo lugar, apesar de não querer abrir uma nova frente de posts, devo dizer que o está aqui em causa é muito mais do que uma simples questão de pormenor sobre a fixação dos salários. Parece-me que existiu um momento em que os modelos da teoria económica se transformaram, de meras simplificações da realidade, em modelos normativos. De onde vem o objectivo corporativo da maximização do lucro ? Desde quando é que o lucro deixou de ser uma restrição necessária à sobrevivência da empresa para passar a ser o objectivo último da organização ? Esta visão da actividade empresarial descreve as motivações últimas dos empresários ? Os austríacos tinham inicialmente uma perspectiva mais realista dos objectivos (egoístas) dos empresários - construir um império, fundar uma dinastia, ficar na história, deixar rasto... Existem é claro outras motivações: O criar algo de novo, fazer qualquer coisa melhor, a prestação de um serviço à comunidade por parte de uma associação, o colocar os nossos talentos dados por Deus ao serviço dos outros...

    O Catecismo ensina que "Opõem-se à doutrina social da Igreja os sistemas económicos e sociais que ... que fazem do lucro a sua regra exclusiva ou o seu fim último". Mas eu vou ainda mais longe: as teorias económicas que assumem este fim último, opõem-se à realidade !

    E desde quando é que o 'trabalho humano' deve ser tratado como mero factor de produção equivalente a uma máquina ?

    [Nota arqueológica: o cliente entra no café, pede uma rissol e uma min e paga com uma profusão de moedas utilizando a mesma mão com que vai pegar no rissol. No final, diz ao 'patrão': obrigado. Pergunto eu: obrigado porquê ? Não pagou ele o que consumiu a preços de mercado ? Será esta palavra um fóssil de uma era anterior em que a actividade económica era algo mais do que uma simples e impessoal transacção comercial com o objectvio de maximizar o lucro e a utilidade. Quando penso nisto vem-me à memória as estalagens descritas por Alexandres Dumas. Vá lá saber-se porquê !]

    É tarde.

    13.7.07

    Vozes do Céu só chegam aos burros

    Algumas horas depois de ter escrito o post anterior sobre o Justo Salário - parte de uma crítica sobre um artigo de um Phd de Harvard -, o sacerdote proclamou o Evangelho da Missa:
    "... o trabalhador merece o seu sustento ..."
    Três dias antes, o DN publicitava as opiniões de alguns eclesiásticos - gente com estudos - sobre o "casamento dos padres", mas o Evangelho da Missa do dia seguinte corrigia a táctiva:
    "Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara"
    O remédio proposto no artigo do DN não tem tido resultados muito famosos nas comunidades cristãs onde tem sido tentado...

    11.7.07

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (3)

    [posts anteriores desta série]

    Antes de examinarmos o terceiro argumento utilizado por Woods para criticar a doutrina do salário justo, convirá em primeiro lugar apresentá-la recorrendo aos documentos do Magistério.

    A DOUTRINA DO JUSTO SALÁRIO

    1. O Concílio Vaticano II ensina que:
      «O trabalho deve ser remunerado de tal modo que permita ao homem e à família levar uma vida digna, tanto material e social, como cultural e espiritual, tendo em conta as funções e a produtividade de cada um, assim como a situação da empresa e o bem comum» (Gaudium et Spes, n.º67)
      Este ensinamento faz eco do magistério dos Papas e está também expresso no Catecismo da Igreja Católica (Catecismo, n.º2434).Na prática, este objectivo é atingido recorrendo sobretudo à remuneração que é "o instrumento mais importante para realizar a justiça nas relações de trabalho", podendo por exemplo recorrer-se à arbitragem em caso de desacordo(Cf. Rerum Novarum, 27). A intervenção do Estado é também moralmente legítima, quer "fornece[ndo] a segurança das garantias das liberdades individuais", quer contribuindo para a justiça distributiva, quer ainda através de "medidas sociais, como os abonos familiares e outros contributos para as pessoas que dependem da família, como também a remuneração do trabalho doméstico de um dos genitores". Nesta questão dos meios para atingir o justo salário, é preciso levar em conta que são "moralmente possíveis diversas estratégias para realizar ou garantir um mesmo valor substancial de fundo". Entre estes meios poderiam, por exemplo, listar-se políticas semelhantes ao "safety net" de Friedrich Hayek ou o "negative income tax" proposto por Milton Friedman. Já para não falar das propostas mais "socialistas" de James Buchanan, resultantes da sua concepção contratualista...

    2. É preciso sublinhar que o Justo Salário não é um aspecto secundário ou marginal da doutrina da Igreja. De facto, a Igreja considera que "comete grave injustiça quem o recusa ou não o dá no tempo devido e em proporção equitativa ao trabalho realizado" (cf. Lv 19, 13; Dt 24, 14-15; Tg 5, 4):

      • Reter o salário do trabalhador é, juntamente com o sangue de Abel, sodomia, clamor do povo oprimido, lamento do estrangeiro, da viúva e do órfão, um pecado que brada aos céus (cf. Lv 19,13; Dt 24,15), "assim chamados pela indig­ni­dade de que se revestem e gravidade do dano causado ao próximo."

      • O pagamento de um salário injusto é a usurpação do bem alheio. O pagamento de salários injustos é uma acção proíbida pelo sétimo mandamento da Lei de Deus ("Não Roubarás").


    3. A obrigação de pagar um salário justo sobrepõe-se ao "simples acordo entre empregado e empregador acerca do montante da remuneração... porque ela «não deve ser insuficiente para a subsistência" (Cf. Rerum Novarum, n.º11 e Catecismo, n.º2434). A igreja ensina mesmo que "... o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano"s e opõe à sua Doutrina.

      Isto resulta do facto de que, acima da vontade das partes, "está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga, a saber, que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado." (Rerum Novarum, 27). Ou dizendo de outra maneira, "a justiça natural é anterior e superior à liberdade do contrato". Com efeito, se o trabalho, na sua dimensão pessoal, pertence à disponibilidade de que cada um goza das próprias faculdades e energias, todavia enquanto necessário, é regulado pela obrigação grave que pende sobre cada um de «conservar a vida»; «daqui nasce por necessária consequência — conclui o Papa — o direito de procurar os meios de sustento, que, para a gente pobre, se reduzem ao salário do próprio trabalho» (Centesimus Annus, n.º8).

      Por outro lado, é uma questão de solidariedade humana e de caridade.

    4. Quais as motivações que levariam o empregador a pagar um salário inferior ao salário justo ?

      Como se referiu acima, a principal razão é a concuspiscência humana que encontra ocasiões de pecado nos diversos contextos económicos em que o Homem se movimenta:
      "Ontem, o conflito entre capital e trabalho era originado, sobretudo, «pelo facto de os operários porem as suas forças à disposição dos patrões e empresários, os quais guiados pelo princípio do maior lucro da produção, procuravam manter o salário do trabalho executado pelos operários o mais baixo possível». Actualmente, a conflituosidade de tal relação apresenta aspectos novos e, talvez, mais preocupantes: os progressos científicos e tecnológicos e a globalização dos mercados, de per si fonte de desenvolvimento e de progresso, expõem os trabalhadores ao risco de serem explorados pelas engrenagens da economia e pela busca desenfreada de produtividade" [Fonte].
      Recordemos alguns episódios recentes, relatados pelos media, passados em países desenvolvidos e no qual estiveram envolvidos portugueses...

      Não quer isto dizer que todas as situações de salários injustos sejam resultado deliberado de acções imorais dos patrões. Recorde-se que o Justo Salário também deve levar em conta a situação da empresa.

    5. Mas porque razão os trabalhadores se sujeitam livremente a receber salários inferiores ao salário justo ?

      Porque, por vezes, os trabalhadores sãos "constrangido[s] pela necessidade ou forçado pelo receio dum mal maior" a aceitar as condições oferecidas(Rerum Novarum, n.º27).
    Existe algum facto empírico ou lei económica que garanta que todos os salários livremente estabelecidos garantem a subsistência digna do trabalhador e da sua família ? Não será necessário para chegar a esta conclusão estabelecer hipóteses irrealistas sobre a flexibilidade laboral, sobre as virtudes do mercado livre, sobre as virtudes dos empresários ou sobre a infalibilidade de determinados autores?

    Veremos de seguida os argumentos utilizados por Woods para defender a sua posição.

    BREAKING NEWS: O PAPA É CATÓLICO !

    Hoje, no Público, o António Marujo afirma que o "Vaticano [criou] polémica com Protestantes por ter afirmado neste documento que a "Igreja de Cristo" [aspas no original] "subsiste" [aspas no original] na Igreja Católica.

    É extraordinário que o Vaticano tenha conseguido criar uma polémica afirmando algo que ainda recentemente tinha re-afirmado (Vd. n.16). Algo, aliás, que já tinha sido ensinado pelo Concílio Vaticano II (Vd. n.º8) e que corresponde ao "que a Igreja ensinou durante séculos".

    Alguns responsáveis Protestantes, diz o artigo, afirmam que as relações ecuménicas serão agora mais difíceis. De facto, as relações com os protestantes têm sido difíceis desde aquele pormenor histórico conhecido por REFORMA PROTESTANTE. Este documento, em comparação, é uma gota de água e é até bastante simpático para os Protestantes (Vd. n.º3, p.ex.). Algumas declarações dos Protestantes sobre os Católicos não são assim tão simpáticas [Anedota: Um Católico chega a um dos estados do Sul dos EUA e pergunta: "Por favor, sabe dizer-me onde fica a Igreja Católica mais próxima ?". Resposta: "Não. Nós por aqui somos todos cristãos".]

    Por outro lado, seria de esperar da parte dos Responsáveis Protestantes outro tipo de declarações: p.ex., se o que a Igreja ensina nesta matéria é verdade ou mentira...

    Por último, não quero deixar de referir que o autor do artigo foca a atenção do leitor no diálogo ecuménico, quando a Declaração será sobretudo dirigida ao "interior" da Igreja e, de alguma forma, aos tradicionalismos radicais a quem a palavra "subsiste" provoca urticária.

    10.7.07

    RESPOSTAS A QUESTÕES RELATIVAS A ALGUNS ASPECTOS DA DOUTRINA SOBRE A IGREJA

    A Congregação para a Doutrina da Fé publicou hoje o documento RESPOSTAS A QUESTÕES RELATIVAS A ALGUNS ASPECTOS DA DOUTRINA SOBRE A IGREJA.

    O resumo deste curtíssimo documento, estruturado em forma de 5 perguntas e respostas, arrisca-se a ser maior que o original:

    • O Concílio Vaticano II não alterou a Doutrina sobre a Igreja;

    • Quando o Concílio refere que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, por subsistência deve enteder-se a "perene continuidade histórica e a permanência de todos os elementos instituídos por Cristo na Igreja católica, na qual concretamente se encontra a Igreja de Cristo sobre esta terra.""

    • Nas Igrejas e comunidades separadas encontram-se "diversos elementos de santificação e de verdade", "que, sendo dons próprios da Igreja de Cristo, impelem para a unidade católica". E que "...embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso ou sejam vazias de significado no mistério da salvação, já que o Espírito se não recusa a servir-se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja católica".

    • Às Igrejas ortodoxas é atribuído o título de Igreja por razões de continuidade histórica e porque "estas Igrejas, embora separadas, têm verdadeiros sacramentos e sobretudo, em virtude da sucessão apostólica, o Sacerdócio e a Eucaristia, por meio dos quais continuam ainda unidas a nós por estreitíssimos vínculos".

    • As comunidades protestantes não são Igrejas em sentido próprio uma vez que "não têm a sucessão apostólica no sacramento da Ordem e, por isso, estão privadas de um elemento essencial constitutivo da Igreja..." e porque "não conservam a genuína e íntegra substância do Mistério eucarístico"

    9.7.07

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (2)

    [posts anteriores desta série]

    PRIMEIRAS CRÍTICAS À DOUTRINA DO JUSTO SALÁRIO

    Woods inicia a sua crítica à doutrina sobre o justo salário na secção com o título "The limits of the Church teaching authority".

    Woods começa por afirmar que os ensinamentos do magistério sobre o salário justo são "de facto bastante recentes, inconsistentes ao longo do tempo, e baseiam-se em pressuposições superficialmente plausíveis mas economicamente dúbias (o alegado poder negocial desigual do trabalho) e aparentemente passíveis de debate".

    Se a doutrina sobre o justo salário for "uma inovação recente" e se estiver num estádio inicial de desenvolvimento doutrinal então Woods poderá defender que determinados aspectos concretos da Doutrina poderão ser desvalorizados ou mesmo substituídos pelos ensinamentos da "Escola Austríaca de Economia".

    Por outro lado, se a doutrina for incoerente, então Woods não se sentirá obrigado a conceder a "religiosa submissão da vontade e do entendimento ... devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra" visto que não se verificam "frequentes repetições da mesma doutrina" (Cf. Lumen Gentium, n.º25).

    Por último, se esta doutrina se basear em observações empíricas que sejam contingentes, variáveis ou mesmo falsas, então o peso doutrinal dos vários ensinamentos e o assentimento que requerem será reduzido (Cf. Compêndio de Doutrina Social da Igreja, n.º85).

    No entanto, ao contrário do que Woods afirma, e de acordo com a Catholic Encyclopedia, a doutrina sobre o justo salário remonta aos primeiros séculos da era Cristã; dificilmente se poderá considerar "relativamente recente". É certo que esta doutrina sofreu desenvolvimentos, nomeadamente, em virtude do advento da sociedade industrial moderna. Mas o desenvolvimento doutrinal no sentido Católico não implica que a Igreja altere os seus ensinamentos. Antes, à medida que o tempo passa os ensinamentos são mais profundamente analisados, compreendidos e coordenados.

    Quanto à questão da incoêrencia da Doutrina, Woods não apresenta exemplos concretos. De qualquer forma, o Compêndio de Doutrina Social da Igreja apresenta uma versão coerente da doutrina do justo salário, citando as Sagradas Escrituras, Encíclicas de sucessivos Papas e documentos conciliares. Estes ensinamentos têm sido sucessivamente afirmados, tendo sofrido as alterações próprias de diferentes épocas históricas e modelos económicos, mas não se alterando no essencial.

    Resta a questão do "alegado poder desigual do trabalho"; o facto empírico falso no qual Woods afirma que se baseia esta Doutrina. Dedicar-se-á um post específico a esta questão.

    Mas antes, parece-me útil descrever a Doutrina do Justo Salário recorrendo ao Catecismo e ao Compêndio de Doutrina Social da Igreja.

    [continua]

    8.7.07

    Motu Proprio Summorum Pontificum (tradução não oficial em português no Super Flumina).

    (Danke)

    Uma humilde crítica de "Catholic Social Teaching and the Market Economy": O caso do salário justo (1)

    No capítulo 4 de "Catholic Social Teaching and the Market Economy", Thomas E. Woods, jr. critica o conceito Católico de salário justo num artigo intitulado The Unanswered Questions of the Just Wage (pp. 91-110). A critica de Woods,ultrapassa, no entanto, a questão do salário justo. Woods utiliza critica este conceito para defender a autonomia da ciência económica face aos ensinamentos da doutrina social da Igreja e a liberdade e a legitimidade dos economistas para questionaram e criticarem os ensinamentos do magistério.

    O AUTOR

    Thomas E. Woods, jr. é um jovem e prolífico ex-professor universitário de história. Publicou já três obras de divulgação sobre a história americana e um outro sobre o papel da Igreja na história do ocidente - com assinalável sucesso comercial, sublinhe-se. Publicou, igualmente, um volume sobre a doutrina social da Igreja no qual se baseou para escrever o cap. 4 do livro que é objecto destes posts.

    Woods foi, igualmente, co-autor de "The Great Façade: Vatican II and the Regime of Novelty in the Roman Catholic Church". Neste volume critica-se o Concílio Vaticano II recorrendo-se à "hermenêutica da descontinuidade": o Vaticano II teria constítuido uma quebra na continuidade histórica doutrinal da Igreja. Os seus partidários teriam criado uma Igreja nova com uma doutrina nova e contraditória face à Tradição. Esta "hermêutica da descontinuidade" é utilizada, tanto por aqueles que pretendem construir uma Igreja nova doutrinalmente adaptada aos "tempos modernos", como por aqueles que pretendem voltar ao passado. No caso deste livro, os autores são tradicionalistas radicais. A estrutura do argumento apresenta algumas semelhanças com a do artigo sobre o Salário Justo: no fundo pretende-se defender que é possível ser um "Bom Católico" e defender doutrinas contrárias aos ensinamentos da Igreja. Uma curisidade: neste livro defendia-se que o então Cardeal Ratzinger era herético. Num 'diálogo' entre Woods e autor deste blog, mantido na caixa de comentários de um blog americano já após a eleição de Bento XVI, Woods pediu desculpa por ter chamado cismático a Ratzinger. Sobre o Vaticano II as posições de Woods não pareciam naquela altura ter-se alterado. O facto de Woods não listar este livro no seu resumé é, no entanto, um sinal positivo.

    Outro traço importante do currículo de Woods é a sua ligação à facção libertarian que se agrupa à volta do Mises Institute. Para além de trabalhar no Mises Institute, a maioria dos jornais académicos onde publicou artigos e a maioria dos prémios que recebeu estão associados ao movimento libertarian. Para efeitos da análise do texto de Woods, considera-se que as principais características deste grupo são a ligação à facção da Escola Austríaca de Economia fundada por Murray Rothbard e a defesa do anarco-capitalismo.Para estes autores, toda e quisquer intervenção do Estado na Economia terá sempre resultados negativos e constiturá sempre uma restrição ilegítima à liberdade individual. Estamos muito longe, por exemplo, do pensamento de Friedrich Hayek ou de Milton Friedman; o primeiro considerava mesmo que o anarco-capitalismo e mesmo o minarquismo (a defesa do Estado Mínimo) eram posições das "alas extremas do movimento liberal" (vd. n.14 aqui).

    [continua]

    7.7.07

    Summorum Pontificum

    Motu Proprio Summorum Pontificum (tradução não oficial em inglês e tradução não oficial em português no Super Flumina) e carta do Papa Bento XVI (em português):
    "Vem-me à mente uma frase da segunda carta aos Coríntios, quando Paulo escreve: «Falámo-vos com toda a liberdade, ó Coríntios. O nosso coração abriu-se plenamente. Há nele muito lugar para vós, enquanto no vosso não há lugar para nós (…): pagai-nos na mesma moeda, abri também vós largamente o vosso coração» (2 Cor 6, 11-13). É certo que Paulo fala noutro contexto, mas o seu convite pode e deve tocar-nos também a nós, precisamente neste tema. Abramos generosamente o nosso coração e deixemos entrar tudo aquilo a que a própria fé dá espaço."
    Data de entrada em vigor: 14 de Setembro de 2007, dia da Exaltação da Santa Cruz.

    5.7.07

    Uma humilde crítica de “Catholic Social Teaching and the Market Economy”: Prefácio

    A doutrina da Igreja é por vezes manipulada com o objectivo de servir os interesses de determinados grupos políticos.

    Recentemente, por exemplo, Hugo Chávez procurou justificar o processo de colectivização socialista em curso na Venezuela com recurso a citações bíblicas oportunistas. Noutros casos, alguns partidos procuram realçar determinados aspectos da doutrina, aparentemente mais consonantes com os seus programas eleitorais, em detrimento de outros aspectos mais importantes que não têm pejo em contrariar. Por exemplo, “a esquerda” americana procura realçar as aparentes semelhanças entre o seus programas económicos e "a exigência ética do ... progresso para uma economia que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum, no respeito da justiça social, [e] do princípio da solidariedade humana...". Mas, simultaneamente, essa mesma "esquerda" compromete a subsidiariedade e promove a liberalização do aborto. A "direita" americana fará exactamente o contrário.

    Estes tentativas aproveitamento e, nalguns casos, de formação de sínteses doutrinais não são más em si. De certa forma, são lisonjeiras para os Cristãos. De facto, nas sociedades “pós-cristãs” existe ainda quem se preocupe em conquistar os seus votos ou, pelo menos, em garantir que as suas propostas estão, pelo menos na aparência, em conformidade com a ética cristã !

    O problema é que, quando “confrontados com princípios morais que não admitem abdicações, excepções ou compromissos de qualquer espécie”, normalmente os promotores destes fusionismos desprezam os ensinamentos da Igreja em benefício dos dogmas da ideologia secular que professam.

    De facto, “[n]inguém pode servir a dois senhores: ou não gostará de um deles e estimará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro” (Mt 6, 24).


    Estes esforços não estão circunscritos aos grandes movimentos e partidos políticos. Por exemplo, os Libertarians – ou, pelo menos, um facção entre estes – procura tabém fazer o mesmo. Um exemplo disto, é o trabalho do Acton Institute of religion and liberty. Outro caso é o recentemente publicado Catholic Social Teaching and the Market Economy. Este livro é editado pelo IEA- Institute of Economic Affairs. O IEA é um dos mais antigos e conhecidos think-tanks britânicos. Conta a lenda que foi fundado por sugestão directa de Friedrich Hayek, logo após a 2ª guerra mundial. As posições defendidas pelo IEA influenciaram as políticas seguidas pela Sr.ª Thatcher e não só. O sucesso do IEA influenciou o aparecimento de instituições semelhantes por todo o Mundo.

    O objectivo da série de posts que agora se inicia é verificar até que ponto os argumentos apresentados em Catholic Social Teaching and the Market Economy são ou não uma tentativa séria de entender e por em prática a doutrina social da Igreja.

    [continua]

    4.7.07

    Caixa de primeiros socorros (deixar ao alcance das crianças)

    I. JESUS CHEGOU à outra margem do lago, à região dos gadarenos, terra de gentios1; talvez procurasse um lugar afastado para descansar com os seus discípulos. Ali curou dois endemoninhados que saíram ao seu encontro. Perto do lugar pastava uma vara de porcos; os demônios pediram‑lhe que, se os expulsava desses homens atormentados, os enviasse àqueles porcos. E o Senhor permitiu‑o. Eles saíram e foram‑se para os porcos, e toda a vara se lançou ao mar barranco abaixo, perecendo nas águas. Os porqueiros fugiram e, indo à cidade, contaram tudo, especialmente o que se passara com os endemoninhados. E eis que toda a cidade saiu ao encontro de Jesus, e, vendo‑o, rogaram‑lhe que se retirasse dos seus limites.

    Rogaram‑lhe que se retirasse daquele lugar. Foi uma grande oportunidade perdida por esses homens; haviam tido o próprio Deus entre eles, e não souberam vê‑lo. Possivelmente, o Senhor nunca mais passou por aqueles lugares. Tinham‑no tido tão perto!, e pediram‑lhe que se afastasse! Que pouco hospitaleiro é às vezes o mundo para com o seu Senhor! Com freqüência, para muitos, o que conta são os bens materiais, e não é difícil ver como se tenta construir uma sociedade em que o Senhor não esteja presente; não lhe deixam lugar, “como se Deus não merecesse nenhum interesse no âmbito dos desígnios operativos e associativos do homem”2.

    Exclui‑se Aquele que dá sentido a tudo. O Senhor ilumina a alegria e o sofrimento, a vida e a morte, o trabalho... E sem Ele, nada vale a pena. “Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à negação de Deus e da sua existência: é o fenômeno chamado ateísmo”3. No fundo de muitas atitudes que rejeitam ou excluem a verdade sobrenatural, encontra‑se um radical materialismo prático que impede de ver a ação de Deus naquilo que nos rodeia.

    Nós dizemos a Jesus que queremos colocá‑lo no cume de todas as tarefas humanas, mediante um trabalho profissional consciencioso; que queremos a sua presença na nossa vida, na família, uma presença que dê sentido ao que somos e ao que possuímos: à nossa inteligência, ao nosso coração, à amizade, aos amores limpos e nobres de cada um. Dizemos‑lhe que queremos permanecer vigilantes, como a sentinela, para dar‑lhe entrada na nossa alma, mesmo que se apresente de uma maneira inesperada.

    II. AQUELES GENTIOS, apesar do milagre relatado pelos porqueiros e de verem livres e sãos os dois endemoninhados, não quiseram receber Jesus. Quantos bens não teriam recebido em suas casas, e sobretudo nas suas almas! Mas estavam cegos para os bens espirituais. O mesmo acontece a muitos nos nossos dias: têm os seus projetos para serem felizes, e freqüentemente olham para Deus simplesmente como alguém que os ajudará a realizá‑los. “O verdadeiro estado de coisas é completamente ao contrário. Deus tem os seus planos para a nossa felicidade, e está à espera de que o ajudemos a Ele a realizá‑los. E que fique claro que nós não podemos melhorar os planos de Deus”4.

    Alguns cristãos, por estarem excessivamente apegados às suas idéias e caprichos, dizem a Jesus que se retire das suas vidas, justamente quando estava mais perto e quando mais precisavam dEle: numa doença, numa contrariedade..., quando perdem uns bens materiais que provavelmente era necessário que perdessem para receberem o Bem supremo, que vem, muitas vezes, por caminhos diferentes dos que eles desejavam. Talvez o esperassem no triunfo, e apresenta‑se no fracasso ou na ruína; não no fracasso produzido pela indolência, pela precipitação ou pela imprudência, mas no fracasso que chega quando, no nosso entender, nos tínhamos servido de todos os meios humanos e sobrenaturais possíveis para acertar.

    Com que freqüência a lógica de Deus não coincide com a lógica dos homens! É o momento de abraçar a vontade divina: “Tu o queres, Senhor?... Eu também o quero!”5 Quantas vezes, diante de contratempos que nem nos passavam pela cabeça, não teremos feito nossa essa oração, de mil modos repetida!

    Já se disse que “o plano de Deus é de uma só peça”, isto é, que não existem peças soltas e sem sentido. Tudo o que nos parece contraditório e inexplicável enquadra‑se no plano divino, ainda que só venhamos a sabê‑lo mais tarde ou na outra vida. Do que não há dúvida é de que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus6. Mas, para o descobrirmos pessoalmente, para descobrirmos a vontade de Deus em todos os acontecimentos da vida, incluídos os menos gratos, para seguirmos Cristo de perto em todas as circunstâncias, “temos que estar seriamente desprendidos de nós mesmos: dos dons da inteligência, da saúde, da honra, das ambições nobres, dos triunfos, dos êxitos.

    “Refiro‑me também – porque até aí deve chegar a tua decisão – a esses anseios límpidos com que procuramos exclusivamente dar toda a glória a Deus, e louvá‑lo, ajustando a nossa vontade a esta norma clara e precisa: «Senhor, só quero isto ou aquilo se for do teu agrado, porque, senão, para que me interessa?» Assestamos assim um golpe mortal no egoísmo e na vaidade, que serpenteiam por todas as consciências; e ao mesmo tempo alcançamos a verdadeira paz na nossa alma, com um desprendimento que acaba na posse de Deus, cada vez mais íntima e mais intensa”7.

    É necessário purificar o coração dos amores desordenados – do amor próprio desordenado, do excessivo apego aos bens que se possuem ou que se desejaria possuir, das idéias e opiniões próprias, dos projetos que se fez acerca da própria felicidade... – para confiar mais no nosso Pai‑Deus. Então poderemos ver claramente e interpretar acertadamente todos os acontecimentos, descobrindo sempre por detrás deles a presença amável de Jesus.

    III. SE NÃO HOUVESSE OCORRIDO aquela hecatombe de porcos, os porqueiros provavelmente não teriam descido à cidade e os seus habitantes não teriam sabido que Jesus estava ali, tão perto. Se a mulher que encontrou o Mestre em Cafarnaum não tivesse estado doente durante tantos anos e não tivesse gasto todos os seus haveres com os médicos, não se teria aproximado de Jesus para tocar‑lhe a fímbria do manto e nunca teria ouvido aquelas palavras consoladoras, as mais importantes da sua vida, que bem valeram todos os sofrimentos e os gastos inúteis... O que nos parece um mal, talvez não o seja tanto; somente o pecado é um mal absoluto, e dele – com amor, com humildade e contrição – pode‑se tirar o saborosíssimo fruto de um novo encontro com Cristo8, em que a alma rejuvenesce.

    Por trás dos males (doença, cansaço, dor, ruína...), encontramos sempre Jesus que nos sorri e nos estende a mão para nos ajudar a superar essas situações e a crescer interiormente. Os males desta vida são um contínuo apelo ao nosso coração, que nos diz: O Mestre está aqui e chama‑te!9 Mas se estamos mais apegados aos nossos projetos, à saúde, à vida... do que à vontade de Deus – a princípio, por vezes misteriosa e incompreensível –, só veremos na desgraça a perda de um bem relativo e parcial que talvez tenhamos convertido em absoluto e definitivo. Que enorme erro se nesses momentos não soubermos compreender que Jesus nos visita!

    Com uma lógica diferente da nossa, o Senhor vai dispondo os acontecimentos para que, com dor algumas vezes e com gosto outras, nos desprendamos de tudo para que Ele invada toda a nossa existência. Temos que pensar muitas vezes na atuação íntima de Deus em nós, pois Ele dispõe até a menor circunstância para que sejamos felizes, para facilitar‑nos o desprendimento de nós mesmos, dos nossos projetos..., para que sejamos santos. Aos olhos de Deus, “uma só alma tem mais valor do que todo o universo, e as maravilhas que Deus realiza no íntimo das nossas vidas são, de longe, mais extraordinárias que todos os esplendores do cosmos material”10.

    Se aqueles gentios tivessem compreendido quem estava diante deles, se tivessem captado o milagre realizado com os dois homens libertados do demônio, que importância teriam dado à perda econômica de uns porcos? Teriam rendido graças a Deus por ela, teriam convidado Jesus para suas casas e organizado uma festa porque o Mestre estava com eles e porque tinham recuperado dois homens.

    Se olharmos com fé para as pequenas ou grandes desgraças da vida, acabaremos sempre por dar graças por elas: pela doença inesperada quando tínhamos tanto que fazer, pela humilhação que sofremos vinda de quem menos esperávamos, pela perda do emprego quando parecia que tínhamos conquistado a confiança dos diretores... Obrigado, Senhor – diremos na intimidade do nosso coração –, porque te apresentaste, ainda que tenha sido por onde menos te esperava! Peçamos à Virgem, que experimentou tantos contratempos, aflições e dores, que nos ensine a não perder essas oportunidades de encontrar Jesus no meio das circunstâncias humanamente mais desfavoráveis.

    S. Isabel de Portugal, a Rainha Santa

    3.7.07

    A farewell to culture wars ? (round 2)

  • BRINK LINDSEY:
    ... If conservative errors exhibit a pattern, and I believe they do, it consists of underestimating the cultural resiliency of a free society. There is a marked tendency among people on the right to conceive of the “moral capital” that makes ordered liberty possible as a one-time bequest from the pre-modern, pre-liberal past. According to this way of thinking, modernity is one long, inexorable slide into decadence — and the more we stray from age-old truths and ways of doing things, the faster decline and fall will be upon us.

    The evidence of recent years shows that this rigid, brittle vision of social order is wrong.

    ... the old cycle of liberty-license-chaos-authoritarianism was avoided... excessively permissive attitudes toward crime and family breakup were given an extended and harrowing tryout, provid[ing] the constituency for the ensuing conservative correction. Americans collectively learned from their mistakes and began to handle their newfound freedom more wisely.

    ... What it shows is that a free society doesn’t just spend a dwindling cultural inheritance; it contains an internal capacity for regeneration.

    What allowed American society to right itself wasn’t resubmission to ancient authority, but continued commitment to what I call core middle-class values: the personal and family values that sustain active participation and upward mobility in commercial society’s ever-expanding division of labor. ...

    So, looking ahead, I advised in my article that conservatives should return to their “core competency” and focus on defending the liberal institutions of limited government and free markets... In particular, they should abandon the now-discredited fear of a liberal order’s fragility that currently motivates the right wing’s divisive tizzies over gay marriage and Mexican immigration.
    "
  • RAMESH PONNURU:
    "He treats opposition to civil rights, disapproval of the sexual revolution, ambivalence about the influx of women into the workplace, and support for the right to life of unborn children as of a piece. All of them are species of resistance to “the logic of social development under capitalism.” ... He then concludes that conservatives should stop trying to fight the march of history...

    ... The demand makes sense if all social conservative causes are the same, impermissibly reactionary thing, except when they happen to further “the logic of social development under capitalism,” whatever that means.

    ... That actual traditionalists might have played a role in tempering the social changes of the last forty years is not, of course, a possibility that Lindsey entertains. The history that Lindsey recounts should lead social conservatives to become more optimistic, or at least less apocalyptic; but there is no reason that it should cause them to disappear.
    "
  • 2.7.07

    A farewel to culture wars ?

    • A Farewell to Culture Wars: Advice to conservatives from a ‘well-wishing outsider’ - BRINK LINDSEY

      "... As the country underwent dizzying and wrenching changes, conservatives defended much that was precious and useful from misguided assault. At the same time, though, they clung to specific practices and ways of thinking that were wrongheaded or at least outdated.

      ... much of what has defined modern social conservatism — namely, political resistance to the incessant cultural change engendered by economic development — is not authentically conservative at all. It is reactionary.

      ... In past decades conservatives imagined that only through maintaining specific social practices and arrangements could order and the values of a free society be preserved. Some thought, in the years before 1964, that disenfranchisement of blacks in the South was necessary to prevent catastrophic misrule. They were wrong. Others thought family life could not survive the exodus of women into the workforce. Wrong again. And others believed that only a revival of faith in Christianity could stave off social breakdown. Once more, with feeling — wrong.

      ... And what’s more, many if not most conservatives today wouldn’t undo the broad thrust of these changes even if they could. Depending on the issue, they range from moderately embarrassed to deeply ashamed of the Right’s past associations with segregation, sexism, and prudery.

      ... I predict that, in 20 years’ time if not sooner, the recent right-wing panics over gay marriage and Mexican immigration will look every bit as hidebound as the old fulminations against “satanic” rock ’n’ roll.

      ... The fundamental question for conservatives today is: What should they be seeking to conserve? The great American heritage of limited government, individual liberty, and free markets seems the only viable answer.
      "

    • A Reply - RAMESH PONNURU

      "He believes that “political resistance to the incessant cultural change engendered by economic development” has “defined” social conservatism. (He is, incidentally, mistaken on this point: It’s not as though conservatives have opposed the rise of evangelical megachurches.[hehehehe]) He thinks that conservatives need a guiding principle to determine which cultural changes need to be resisted, and he finds it in conservatism’s historical defense of classic-liberal traditions and institutions. Frank Meyer would not have objected to that formulation...

      ... Lindsey predicts that before too long “the recent right-wing panics over gay marriage and Mexican immigration will look every bit as hidebound as the old fulminations against ‘satanic’ rock ’n’ roll.” Maybe they will. That won’t necessarily mean that those “panics” were mistaken. It could mean that they were prescient. If your concern about same-sex marriage is precisely that it will have negative effects on our culture, then presumably one of those effects will be to render the culture inhospitable to your concern.

      We should not, I think, take Lindsey to be saying that conservatives are wrong to oppose same-sex marriage and contemporary immigration patterns because they will inevitably fail. If he were saying that, then his advice would have no particular import for conservatives. Libertarians have fought quixotic crusades of their own. Libertarians, more than any non-libertarian faction of the Right, still object to the anti-discrimination laws that were part and parcel of the social transformation Lindsey chronicles.

      Instead, I take Lindsey to be saying that conservatives are wrong to oppose same-sex marriage and continuous mass immigration because these things do not threaten the liberal order and, indeed, follow from it...

      A conservative might argue that ... limited government is possible only in a culture characterized by a high degree of familial stability, and that same-sex marriage, by weakening the association between marriage and child-rearing in our law and culture, would undermine that stability. Someone making this argument might note here that among the consequences of the sexual revolution that Lindsey does not discuss is that the government’s family courts now tell millions of Americans how much time they can spend with their children...

      ... Rates of illegitimacy, abortion, crime, and divorce have all fallen, as Lindsey rightly notes... But if conservatives “deserve considerable credit” for bringing these rates down by resisting certain cultural changes, why should we not continue on resisting, in the hope of bringing the rates down further? Lindsey is too complacent about today’s rates...

      I have largely ignored Lindsey’s suggestion that voters with his mix of views hold the key to the future. ... Both parties have strategists that can read survey data, and that is why they have been moving in exactly the opposite direction, with Republicans emphasizing social conservatism rather than market economics, and Democrats emphasizing statist economics rather than social liberalism.

      Lindsey’s core recommendation does not, however, concern party politics. It is that conservatives follow “the logic of social development” in a capitalist society. If he had told us to follow the hand of Providence, his advice would have been at least as practical.
      " [hehehehe]