29.4.09

Bento XVI e S. Nuno. Lições de uma canonização (Massimo Introvigne)



"A data de 26 de Abril de 2009 está destinada a ser uma data de referência na história de Portugal e da Igreja, por ser a data da canonização de São Nuno Álvares Pereira (1360-1431), uma figura sem a qual – como recordou o Bispo de Beja, D. Vitalino Dantas O. C. D. - «não haveria Portugal».

... Alguns intelectuais «progressistas», e pelo menos um bispo, criticaram esta canonização, afirmando que São Nuno «foi sobretudo um militar e quem mata o próximo não merece o título de santo». Estas posições – que denotam, para além de tudo o mais, um profundo desconhecimento da natureza da santidade católica – levaram outros a insistir exclusivamente nos últimos nove anos da sua vida (1422-1431), que o novo santo – depois de ter mandado construir, a suas expensas, o Convento do Carmo, em Lisboa – viverá na qualidade de frade carmelita, interpretando estes anos quase como uma penitência pelo seu passado de militar, que é visto como um aspecto de que São Nuno deveria pedir perdão, a Deus e aos homens.

As palavras proferidas por Bento XVI na solene cerimónia de canonização contrariam estas interpretações e estes preconceitos. Com efeito, o Papa exaltou a figura do cavaleiro cristão, empenhado na «militia Christi, ou seja, no serviço de testemunho que cada cristão é chamado a dar no mundo; características dele são uma intensa vida de oração e uma absoluta confiança no auxílio divino. Embora fosse um óptimo militar e um grande chefe, nunca deixou os dotes pessoais sobreporem-se à acção suprema que vem de Deus. São Nuno esforçava-se por não pôr obstáculos à acção de Deus na sua vida, imitando Nossa Senhora, de quem era devotíssimo e a quem atribuía publicamente as suas vitórias».

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A canonização de São Nuno, declarou Bento XVI, pretende mostrar à Igreja que se pode viver «uma vida de fé e oração em contextos aparentemente pouco favoráveis à mesma, sendo a prova de que em qualquer situação, mesmo de carácter militar e bélico, é possível actuar e realizar os valores e os princípios da vida cristã, sobretudo se esta é colocada ao serviço do bem comum e da glória de Deus».

E, embora tenha havido quem procurasse diminuir a longa fase «militar e bélica» da vida do novo santo – como se a santidade de Nuno Álvares Pereira apenas se tivesse manifestado no «ocaso da sua vida» no convento –, Bento XVI salienta, pelo contrário, a «figura exemplar» do Condestável também como cavaleiro, milites Christi, uma vocação a que a cavalaria dá o nome, e que se manifesta, naturalmente, de modos diferentes em diferentes épocas, sem no entanto deixar de ser um caminho eminente de santidade para o leigo católico que consagra a sua vida «ao serviço do bem comum e da glória de Deus».

É certo que Nuno Álvares Pereira viveu num período em que a cavalaria começava a entrar em decadência. Combatem a seu lado, em Aljubarrota, os filhos das mais importantes famílias portuguesas, duzentos cavaleiros que constituem a «Ala dos Namorados» e que a lenda de Portugal compara aos Cavaleiros da Távola Redonda. O nome é uma referência às insígnias das noivas, que estes cavaleiros ostentavam no escudo, e assinala uma viragem da cavalaria para um certo romantismo sentimental, que São Nuno sabe contudo, na vigília da batalha, corrigir com um austero apelo à oração e à vida eterna. Na realidade, a Ala dos Namorados acabará por se bater com extraordinária coragem, que foi decisiva para a vitória portuguesa.

A actividade «militar e bélica» do santo agora canonizado é um dos elementos da exemplaridade da sua vida. Mais ainda: mantendo a confiança em Deus na guerra e nas batalhas, a par de uma vida de oração e de uma enorme devoção a Nossa Senhora, a quem «atribuía publicamente as suas vitórias», São Nuno coloca-se ao serviço de um «desígnio particular de Deus», que se encontra misteriosamente na origem da independência da nação portuguesa e do seu serviço missionário ao Evangelho, através de descobertas geográficas e de conquistas que a levarão «aos confins da terra». Um mistério que, em 1917, Nossa Senhora virá confirmar em Fátima, prometendo que «em Portugal se há-de conservar sempre o dogma da fé», promessa nada pequena para uma nação que, contando nas suas fileiras com um São Nuno Álvares Pereira, tem um passado glorioso de serviço à Igreja."

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