8.5.12

A ideologia como forma de superstição

Na sequência do anterior post sobre a conferência "Fé e superstição", ficou-me a dúvida: pode a ideologia ser uma forma de superstição ?


Uma primeira resposta resulta da Encíclica Mit Brennender Sorge sobre a Igreja e o Reich Alemão da autoria do Papa Pio XI:
"Whoever exalts race, or the people, or the State, or a particular form of State, or the depositories of power, or any other fundamental value of the human community - however necessary and honorable be their function in worldly things - whoever raises these notions above their standard value and divinizes them to an idolatrous level, distorts and perverts an order of the world planned and created by God; he is far from the true faith in God and from the concept of life which that faith upholds."

Pio XI, Mit Brennender Sorge, 14/03/1937

Sempre que a ideologia eleva algum valor fundamental da comunidade humana acima da ordem natural criada e planeada por Deus e o diviniza pratica a idolatria, que é uma forma de superstição.


Uma aplicação ao mercado

Quem, por absurdo, associasse ao mercado - por muito útil e necessário que ele seja - atributos  tais como a omnipotência, a omnisciência, a justiça, a verdade; quem pretendesse estender o império do mercado a todas as áreas da vida humana e comunitária em detrimento de outros valores; quem estivesse disposto a fazer sacrifícios humanos de de forma a apaziguar e obter benefícios da 'divindade'; quem fizesse todas estas coisas estaria a subverter a ordem natural criada por Deus e a associar a uma vertente da comunidade humana atributos que são de Deus. Estaria, portanto, a praticar a idolatria.

Mas, mais do que a idolatria, quem pretendesse transformar o mercado na "solução aparente para os seus problemas, à custa da apostasia da verdade" ou pretendesse, através do mercado, "realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela", estaria, mesmo inconscientemente e com boas intenções, a contribuir para uma "impostura religiosa ... isto é um pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado".

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