4.10.12

Falando de pobreza no dia de S. Francisco de Assis

"O Senhor chamou São Francisco para que a sua vida pobre fosse um fermento novo naquela sociedade que, pelo seu apego aos bens materiais, se afastava cada vez mais de Deus. Com ele – afirma Dante – “nasce um sol para o mundo”, um instrumento de Deus para ensinar a todos que a esperança deve estar posta apenas no Senhor.

Certo dia, rezando na igreja de São Damião, ouviu estas palavras: Vai e reconstrói a minha casa em ruínas…

A restauração da cristandade deveria vir pelo desprendimento dos bens materiais, pois a pobreza bem vivida permite colocar a esperança em Deus e apenas nEle...

A pobreza é uma virtude cristã que o Senhor pede a todos – religiosos, sacerdotes, mães de família, profissionais, estudantes... –, mas é evidente que os cristãos que estão no meio do mundo devem vivê-la de um modo bem diferente de como a viveu São Francisco e de como a vivem os religiosos que, pela sua vocação, devem dar um testemunho de certo modo público e oficial da sua consagração a Deus…

A pobreza do cristão corrente tem por base “o desapego, a confiança em Deus, a sobriedade, a disposição de compartilhar”. O simples leigo deve aprender ... a compatibilizar “dois aspectos que, à primeira vista, podem parecer contraditórios: pobreza real...feita de coisas concretas, que seja uma profissão de fé em Deus, uma manifestação de que o coração não se satisfaz com coisas criadas, mas aspira ao Criador, desejando saturar-se de amor a Deus e depois dar a todos desse mesmo amor”; e, ao mesmo tempo, a sua condição secular, que lhe exige que seja “mais um entre os seus irmãos os homens... amando o mundo e todas as coisas criadas, a fim de resolver os problemas da vida humana e estabelecer o ambiente espiritual e material que facilite o desenvolvimento das pessoas e das comunidades”…

“Desapega-te dos bens do mundo. – Ama e pratica a pobreza de espírito. Contenta-te com o que basta para passar a vida sóbria e temperadamente.

... Não podeis servir a Deus e às riquezas. ... Esse aviso do Senhor pode parecer estranho numa época em que um desmedido afã de comodidades alimenta diariamente a cobiça das pessoas e das famílias. São muitos os que aspiram obsessivamente a ter mais, a gastar mais, a conseguir o maior número de prazeres possíveis, como se esse fosse o fim do homem na terra.

Na prática, essa pobreza real tem muitas manifestações. Em primeiro lugar, estar desprendidos dos bens materiais, desfrutando deles como bondade criada de Deus que são, mas sem considerar necessárias para a saúde e para o descanso coisas de que podemos prescindir com um pouco de boa vontade. “Temos que ser exigentes conosco na vida cotidiana, para não inventar falsos problemas, necessidades artificiais que, em último termo, procedem da arrogância, do capricho, de um espírito comodista e preguiçoso. ...Essas necessidades artificiais podem referir-se a instrumentos de trabalho, artigos esportivos, peças de vestuário, viagens de lazer bizarras, carros sempre do último modelo, objetos eletrônicos sofisticados, etc., etc.

Santo Agostinho aconselhava aos cristãos do seu tempo: “Procurai o suficiente, procurai o que basta. O resto é aflição, não alívio; esmaga, não levanta”. Como o bispo de Hipona conhecia bem o coração humano! Porque a verdadeira pobreza cristã é incompatível com o supérfluo, com o excessivo...

... “Muitos se sentem infelizes, precisamente por terem demasiado de tudo. – Os cristãos, se verdadeiramente se comportam como filhos de Deus, poderão passar incomodidades, calor, fadiga, frio... Mas jamais lhes faltará a alegria, porque isso – tudo! –, quem o dispõe ou permite é Ele, e Ele é a fonte da verdadeira felicidade”.

A verdadeira pobreza permite que nos desprendamos de nós mesmos para nos entregarmos a Cristo; é uma forma suprema de liberdade, que nos abre sem reservas nem restrições à amorosa Vontade de Deus, como nos ensina o próprio Cristo. Para amá-la – querermos ser pobres, quando tudo parece induzir-nos a querer ser ricos –, ...a pobreza enquanto virtude ...situa o homem em condições de viver segundo o querer de Deus, servindo-se dos bens materiais para conquistar o Céu e ajudar o mundo a ser mais justo, mais humano. Se vierem às tuas mãos as riquezas, não queiras pôr nelas o teu coração. – Anima-te a empregá-las generosamente. E, se for preciso, heroicamente…

... Na Sagrada Escritura, a pobreza expressa a condição de quem se colocou absolutamente nas mãos de Deus, deixando nelas as rédeas da sua vida, sem querer outra segurança. É a retidão de espírito de quem não quer depender dos bens da terra, ainda que os possua. É o firme propósito de não ter senão um só Senhor, porque ninguém pode servir a dois senhores. Quando servimos as riquezas, o dinheiro, os bens terrenos – sejam de que tipo forem –, todos eles se convertem em ídolos. É essa idolatria da qual São Paulo dizia aos cristãos que nem sequer deveria ser mencionada entre eles."

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