16.1.13

Mártires de Marrocos

"A 16 de Janeiro de 1220 morrem degolados em Marrocos os franciscanos evangelistas Vital, Berardo, Pedro, Acúrsio, Adjuto e Otão, mais tarde denominados como Santos Mártires de Marrocos, com festa litúrgica a 16 de Janeiro.


Em 1219, Francisco de Assis enviou em missão para o Marrocos seis frades menores, de nomes Vital, Berardo, Otão (sacerdotes), Pedro (diácono), Acúrsio e Adjuto (leigos).


Partindo da península Itálica, de passagem pelo reino de Aragão, frei Vital adoeceu e ficou. Sob a direção de Berardo, os demais continuaram a sua jornada e alcançaram o Reino de Portugal onde, em Coimbra, foram recebidos pela rainha D. Urraca, esposa de Afonso II de Portugal. Impressionada com a santidade destes frades a rainha pediu-lhes que lhe revelassem a hora da sua morte e se quem morreria primeiro seria ela ou o rei. Os frades então lhe revelaram que ela morreria quando os seus corpos chegassem de Marrocos, imolados em nome de Jesus, e o primeiro dos dois que os visse mortos morreria primeiro. De acordo com a tradição, mais tarde, a rainha, tendo sido a primeira a ver as relíquias dos mártires de volta a Coimbra, veio a ser a primeira a falecer.

De Coimbra, os frades continuaram para Alenquer onde se apresentaram à infanta D. Sancha, filha de Sancho I de Portugal e irmã de D. Afonso II. Esta, vendo-os de hábito, o que dava nas vistas, denunciando-os como pregadores cristãos, arranjou-lhes roupas comuns, pois de outra forma não conseguiriam chegar ao seu destino.

Prosseguindo a sua viagem, após passarem por Lisboa, alcançaram Sevilha, onde se demoraram por uma semana em casa de um cristão.

Ao fim desta, voltaram a envergar os seus hábitos e foram à mesquita, justamente em dia de festa islâmica, e começaram a pregar a doutrina de Jesus, denunciando que Maomé não passava de uma idolatria.

Expulsos violentamente da mesquita e tomados por bêbados, decidiram então pregar ao próprio califa. À porta do palácio recebeu-os o filho do sultão que lhes pediu credenciais para poderem falar com o seu pai. Insistindo em que o que tinham a dizer apenas o diriam diante do sultão... [que os questionou sobre a proveniência e o que buscavam. Os santos limitaram-se a responder Somos cristãos, vimos de Itália e somos enviados pelo Rei dos Reis, Jesus Cristo, para salvar a tua alma. Deixa os erros de Maomé, crê em Jesus, verdadeiro Deus, recebe o baptismo em nome da Santíssima Trindade. Se não procederes deste modo, não poderás ser salvo].


O rei não gostou da resposta, insurgiu-se com a sua presença, mandou açoitá-los e degolá-los. Uma ordem não cumprida devido à acção do príncipe, filho do rei de Sevilha; o rei suspende a sentença e encerra-os numa torre até consultar os letrados, com vista a decidir o seu destino.


O príncipe, que simpatizara com a simplicidade dos frades, exortou-os por seu turno a converterem-se ao islamismo, sem sucesso.

Após consultar os letrados, o rei sevilhano deixou-os partir a caminho de Marrocos, acompanhados de um fidalgo castelhano, terra onde pousava o imperador dos mouros. Em Marrocos, os santos foram levados a casa do infante D. Pedro, irmão do rei de Portugal D. Afonso II. O infante, ao saber dos seus propósitos, aconselhou-os a tomar cuidado pois o Imperador podia irritar-se e provocar neles algo nefasto.


Os santos, ao saberem que o Imperador visitava as sepulturas reais, aproximaram-se e Berardo tomou o sítio mais alto para pregar...
Vendo-o, o miramolim decretou a sua expulsão da cidade e o exílio dos frades para um país cristão. D. Pedro de novo os recolheu em sua casa e os mandou escoltar para Ceuta, não fossem eles pôr em risco a minoria cristã que poderia sofrer represálias por parte dos muçulmanos.


A meio do percurso, os frades, esquivando-se à vigilância, regressaram a Marrocos, onde reiniciaram a pregação, agora em pleno mercado Novamente detidos pelas forças do miramolim, permaneceram vinte dias nas masmorras sem comer nem beber.. Um conselheiro do rei intercedeu pelos frades e estes foram chamados à sua presença. O rei constatou por si próprio que os frades estavam bem nutridos quando era para estarem mortos de fome.

Novamente libertos, os frades apressavam-se em retomar a sua missão, quando foram detidos pelos próprios cristãos na cidade, que os impediram, com medo que os muçulmanos pudessem começar a matar cristãos. De novo foram levados para Ceuta, e novamente conseguiram escapar e voltar a Marrocos. Desta vez, o próprio Infante D. Pedro, com medo das represálias contra os cristãos obrigou-os a permanecer em sua casa em silêncio. Resolveu então levá-los com um exército de soldados cristãos e muçulmanos com o qual ia combater uma rebelião. No regresso, e vitorioso, o exército teria morrido de sede não fossem os frades fazer brotar da areia do deserto água em abundância para os soldados, para os cavalos e mesmo para armazenarem para a viagem uma vez que fazia três dias que já não tinham água. Saciadas as sedes e enchidos os odres, aquela fonte que Berardo abrira na areia secou de novo.

Este milagre, bem como o êxito na discussão contra um sábio muçulmano de grande prestígio, chegou ao conhecimento do miramolim que ficou espantado com a sabedoria e o poder dos frades. Mas estes, de novo diante do sultão, insistiram na sua mensagem e provocam de novo a sua ira. Decretada mais uma vez a morte deles, o sultão encarregou o seu filho Abosaide de os prender e decapitar. Mas este, que tinha presenciado o milagre do deserto e sido salvo também pelos frades de morrer à sede, arranjou meios de evitar matá-los. Os cinco frades, insistindo em não abandonar a sua pregação, fizeram com que Abosaide os mandasse prender e decidisse cumprir as ordens de seu pai.

Interrogados pelo príncipe eles insistiram no seu propósito. Foram açoitados e, atados de mãos e pés, arrastados de um lado para o outro por cavalos. Em seguida, sobre os seus corpos descarnados deixaram cair azeite a ferver, continuando depois a arrastá-los pelo chão, mas desta vez sobre vidros e cacos espalhados pelo chão. Alguns espectadores compadeceram-se e pediram-lhes que se convertam a Maomé para se lhes acabar aquele suplício. Abosaide tentou a seu turno demovê-los. O miramolim tentou-os com dinheiro e com mulheres.

Sem nada a fazer, o miramolim concluiu que só a espada poderia calar aqueles homens e, tomando da cimitarra, decapitou-os, depois da fendição das cabeças a meio. Foi no dia 16 de Janeiro de 1220.

Os restos mortais foram arrastados e ultrajados nas ruas, sendo finalmente queimados.


Os cristão portugueses residentes em Marrocos conseguiram recolher clandestinamente os restos mortais, levaram-nos ao infante D. Pedro e este ordenou que fossem colocados em duas arcas e, recorrendo ao suborno, conseguiu levá-las para Portugal, onde foram recebidos triunfalmente.

O rei D. Afonso II, ao aperceber-se da chegada a Coimbra das arcas com os restos mortais, cuidou da recepção e devoção no convento de Santa Cruz. Os restos foram então colocados em altar privilegiado, foram cultuados com muita devoção e direito à formulação de Irmandade em seu louvor e, mais tarde, ficaram a repousar entre os maiores no Santuário do convento crúzio.

É no momento da chegada a Coimbra dos restos mortais que um noviço de Santo Agostinho, Fernando de Bulhões, cônego regrante de Santo Agostinho, se fez frade menor tomando o nome de Frei António, vindo a consagrar-se na pregação e evangelização como franciscano e Santo da Igreja, com o nome de... Santo António (Santo António de Lisboa).

Clara de Assis desejava a graça do martírio que alcançaram aqueles frades e S. Francisco dizia: "agora posso dizer com verdade que tenho cinco verdadeiros frades menores".

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