3.4.14

A excomunhão de uma Papa muito popular e bem-intencionado [actualizado 09/04/2014]

Esta é a história de uma homem a quem Deus permitiu que ascendesse ao Papado. O seu pontificado durou quase 13 anos (625-638), até ao dia em que a sua alma se separou do seu corpo e ele foi julgado pelo Amor. O nome pelo qual é conhecido este sucessor de Pedro é Honório I.


Um Papa popular

Foi um Papa que cuidou das necessidades espirituais e materiais dos habitante da sua Diocese e, enquanto Sumo Pontífice, promoveu o proselitismo e a unidade dos Cristãos e preocupou-se com as questões litúrgicas:
"O Papa Honório era muito respeitado e morreu com uma reputação irrepreensível. Poucos Papas fizeram mais pelo restauro e embelezamento das Igrejas de Roma... Preocupou-se igualmente com as necessidades temporais dos romanos e reparou o aqueduto de Trajano. As suas cartas mostram-no envolvido em muitos assuntos. Apoiou o Rei Lombardo Adalwald que tinha sido deposto por um rival ariano sob a acusação de estar louco. Teve algum sucesso... na reunificação do Metropolita cismático da Sé de Aquileia. Escreveu uma exortação apostólica aos Bispos espanhóis e S. Bráulio de Saragoça respondeu-lhe... Enviou S. Birinius às ilhas britânicas para converter os Saxões... Em 630 exortou os Bispos Irlandeses a celebrarem a Páscoa na mesma data que o resto da Cristandade ... e toda a Irlanda do Sul adoptou o costume da Sé romana."


As boas intenções...

Mas no meio de todas estas obras e da aclamação geral, a sua passagem por este vale de lágrimas ficou manchada por um feito que destruiu a sua reputação e o seu legado.

Porque, estão a ver, o Papa Honório I, seguindo o mandato de Jesus (Jo 17,21), prezava a unidade e queria atrair a si aqueles que se encontravam afastados daquela Igreja que é sacramento universal de salvação (Cf. Catecismo da Igreja Católica 774 e sgs), de tal forma que fora dela não há Salvação (Cf. Catecismo da Igreja Católica, 846 e sgs).


... que levam à negligência, falta de clareza e promoção do erro...

Foi assim que tudo aconteceu: em 622 um heresiarca monofisita entrou em polémica com o Imperador Heraclius. Durante a discussão, o Imperador utilizou a expressão "uma operação". Querendo ter a certeza da ortodoxia da expressão utilizada, o Imperador referiu a questão a Cyrus, Bispo de Phasis e Metropolita de Lazi. Este, por sua vez, inquiriu Sergius, Patriarca de Constantinopla. O Patriarca considerou que a fórmula em causa era lícita visto que tinha sido utilizada numa carta de um seu antecessor, Mennas, dirigida ao Papa Vigilius (537-555). Esta carta teria merecido a concordância do mencionado Pontífice. Sergius desconhecia, no entanto, que a missiva em causa tinha sido forjada. Posteriormente, quando Cyrus foi elevado à Sé de Alexandria, foi confrontado com a divisão entre católicos e a maioria monofisita numa altura em que a ameaça sarracena exigia unidade. Cyrus redigiu então uma declaração doutrinal (capitula) em que mencionava a expressão "uma operação" e que permitiu a reunião de grande número de monofisitas. S. Sofrónius, monge e futuro Patriarca de Jerusalém, insurgiu-se contra esta fórmula e recorreu a Sergius. O Patriaca de Constantinopla aconselhou então Cyrus a probir a utilização das expressões "uma operação" e "duas operações" e informou o Bispo de Alexandria que procuraria obter o acordo do Papa em relação a este modo de agir.

Envolvido na polémica doutrinal sobre o monotelismo, que surgia como um compromisso aceitável para os hereges monofisitas, Honório quis traçar uma via intermédia: afirmou a verdade católica, mas não condenou o erro. Simultaneamente, deu azo a que este não fosse eficazmente combatido, acabando por promover a heresia monotelita.

Afirma Honório nas Encíclicas Scripta fraternitatis vestrae e Scripta dilectissimi filii dirigidas a Sergius: Jesus é uma única pessoa divina, tem duas naturezas - humana e divina - que não se misturam. Depois, afirma existir uma única vontade da pessoa divina, entendida como a cooperação da vontade humana, livre do pecado, com a vontade divina (enquanto a doutrina católica afirma duas vontades cooperantes). A seguir Honório refere que não se devem utilizar as expressões "uma operação" (o erro monotelita), nem a fórmula “duas operações” (a doutrina católica), mas antes duas naturezas e "um operador". Ou seja, não só não condena o erro monotelita, como considera que não se deve usar a expressão que o permitiria combater.(Cf. Denzinger 251-252 e comparar com Catecismo da Igreja Católica 475).

O mal estava feito.

As palavras de Honório, nomeadamente a referência a "uma vontade" e a indicação de que não se deveria utilizar as expressões "uma operação" ou "duas operações", foram utilizadas para redigir o chamado Ecthesis - uma profissão de fé na qual se confessava a fé n'"uma vontade" e se proibia a utilização de ambas as fórmulas anteriormente mencionadas. Os monofisitas puderam assim acercar-se e permanecer fomalmente entre aqueles a quem o sucessor de Pedro deve confirmar na Fé (Lc 22, 32).

Mas ao mesmo tempo que baptizaram o erro monotelita, as palavras de Honório permitiram que a "pureza da Igreja" fosse "poluída".



O resultado: Nem unidade, nem ortodoxia. Erro, discórdia, cisma ...

Ao tentar sacrificar a verdade no altar da unidade, Honório legou à Igreja o erro e o conflito. O abrir da porta da tenda para permitir a entrada de quem estava fora fez também entrar, juntamente com o erro, o vento da discórdia.

Veio logo um dos sucessores de Honório, João IV, tentar evitar as piores consequências, defendendo na Encílica Dominus qui dixit que o sentido das palavras de Honório era perfeitamente ortodoxo (Denzinger 253) - que "ao falar de uma vontade, Honório pretendia apens dizer que não existiam duas vontades opostas" -, como aliás se depreende do que acima ficou escrito, mas debalde. Nem as intevenções magisteriais, nem o passar do tempo ajudaram a curar esta ferida.

Apesar das sucessivas intervenções de Roma - o Papa Severinus (640), sucessor de Honório, condenou o Echtesis; o sucessor de Severinus, João IV (640-642), convocou um sínodo que condenou de novo o Echtesis; o Papa Teodoro I (642-649) lutou contra o Echtesis -, a controvérsia não diminuiu.

Apoiados pelos Imperadores do oriente, os patriarcados de Antioquia, Jerusálem e Alexandria, ocupados por apoiantes do Ecthesis, separaram-se de Roma.


... e a crítica, perseguição e martírio dos que se mantiveram fiéis

Enquanto isso os defensores da Fé foram chamados ao martírio.

Honório tinha já criticado S. Sofrónius na sua resposta a Sergius.

Na sequência das várias condenações do Echtesis, o Imperador Constans, sob a influência do novo Patriarca de Constantinopla - Paulo -, fez publicar um decreto disciplinar, o Typos (648/649), no qual é proibida a utilização das duas polémicas fórmulas e ainda das expressões "um vontade" e "duas vontades". O Typos punia com deposição Bispos e clérigos, com a excomunhão os monges, com a perda de cargos e honrarias os funcionários, com multas os leigos ricos e com açoites e exílio permanente leigos mais pobres.

Paulo, perseguiu os legados do Papa (e destruiu os altares utilizados por estes para celebrar o Santo Sacrifício). Perseguiu igualmente muitos leigos e sacerdotes, aprisionando-os, exilando-os ou açoitando-os.

Na sequência da intervenção do Papa S. Martinho I (659-665) , que condenou ex cathedra o Echtesis e o Typos e todos os heresiarcas monotelitas num Concílio de Latrão (ver Denzinger 254 e sgs)e procedeu à remoção e substituição de Bispos, Presbíteros e Diáconos monofisitas, este sumo pontífice, sob das ordens do Imperador Constans, foi raptado, exilado, insultado, espancado, torturado e morto por se recusar a assinar o Echtesis.

Sorte semelhante teve S. Maximus de Constantinopla (580-662), um seu discípulo, o monge Anastasius, e, ainda, a outro Anastasius, enviado do Papa: as suas línguas e mãos direitas foram cortadas e foram assim exibidos publicamente. Depois foram enviados para a prisão, onde vieram a falecer.


Uma resposta vigorosa, mas insuficiente

Após a intervenção enérgica do Papa S. Martinho I - já atrás mencionada, vários outros papas condenaram e reprimiram o monotelismo, por exemplo, o Papa S. Adeodatus (672-676) e o Papa S. Agatho (678-681) (ver Denzinger 288).

No entanto, a clareza doutrinal e as medidas disciplinares não levaram à conversão dos defensores do Echtesis e do Typos (que é já uma reacção à condenação do Echtesis), que continuaram a citar as palavras de Honório em sua defesa. Nenhuma das condenações papais questionava o papel ou as palavras de Honório, antes o procuravam justificar ...


Uma tentativa de apaziguamento

Será igualmente de referir a abordagem alternativa do Papa S. Vitaliano (657-672) - aquele que teve o pontificado mais longo deste período.

Este Papa promoveu o diálogo, evitou o confronto, as condenações e a discussão das questões doutrinais mais salientes. Obteve alguns resultados temporários: O Patriarca de Constantinopla voltou a reunir-se à Igreja, embora sem aceitar o erro ou mostrar arrependimento; durante o período da heresia monotelita, S. Vitaliano foi o único Papa reconhecido pela Igreja oriental.

Foi um período de visitas "de estado", apoios políticos, troca de presentes, gestos de cortesia e amizade e palavras dúbias e enganadoras (do Patriarca). Todo um edifício construido sobre os alicerces da "reserva mútua sobre a questão dogmática". Logo que o Papa pretendeu forçar a conversão do Imperador, regressou o cisma.


A condenação de Honório I

Era necessário voltar a cravar as estacas da tenda da Igreja naquela Rocha sobre a qual Jesus a quis construir e contra a qual as portas do inferno não prevalecerão (Mt 16, 18).

Passados 43 anos sobre a morte de Honório I, no concílio de Constantinopla III, o monotelismo, os seus heresiarcas e todos os que tinham contribuído para a propagação deste erro foram condenados. Entre estes últimos encontrava-se Honório I:

"Nós decidimos que também Honório, que foi Papa da Antiga Roma, seja com eles expulso da Santa Igreja de Deus, e que seja anatemizado com eles, porque nós concluímos que na sua encílica a Sergius ele seguiu a opinião deste em tudo e confirmou os seus malditos dogmas".
Na promulgação dos canônes do Concílio de Constantinopla III, no mesmo acto que fez ascender este Concílio ao nível dos Concílios Ecuménicos, o Papa S. Leão II (682-683), "no acto mais importante do seu pontificado", subscreve a condenação de Honório e precisa os fundamentos da mesma "tendo o cuidado de frisar que este não era condenado por ter ensinado uma heresia, mas por não ter sido suficientemente activo a opor-se a esta":
"Nós anatemizamos ... também Honório, que não tentou santificar esta Igreja Apostólica com o ensinamento da Tradição Apostólica, antes por traição profana permitiu que a sua pureza fosse poluída".
É este o verdadeiro epitáfio de Honório I.

[Nota: Num dos artigos citados é referido um facto interessante que aqui deixo para mais tarde recordar. Durante as discussões e polémicas entre Católicos e defensores do Echtesis a "posição da Igreja de Roma" era a de que: "a proibição das palavras correctas é sempre heresia, mesmo que o autor da proibição não tenha intenções heréticas e seja apenas 'de vistas curtas' ou esteja confundido".]

A resolução dogmática e disciplinar do problema criado pelas palavras de Honório não foi o fim da história. Apenas em 715, 77 anos após a morte de Honório, e depois de mais algumas peripécias de natureza política e secular, foi finalmente enterrado o monotelismo.


1.000 anos de má-fama

Nos anos que se seguiram à sua condenação, Honório I, cuja popularidade entre os seus contemporâneos não pode ser negada, viu a sua condenação no Concílio de Constantinopla III ser promulgada por mais 3 Papas. Foi também condenado pelo 7.º concílios ecuménico e por todos os Papas entre os sécs. VII e XI (na cerimónia da sua elevação ao Papado).

A condenação do Papa Honório I constou igualmente do Breviário [dia 28 de Junho (S. Leão II)] até ao Séc. XVIII, altura em que, tendo passado 1.000 anos sobre os factos e tendo surgido outras preocupações, foi decidido retirar esta referência ...


Algumas notas finais, ao jeito de moral da história

  1. Como foi referido em post anterior, nas encílicas de Honório I não é definida nenhuma doutrina ex cathedra e, por isso, não está em causa a infalibilidade do Papa.

  2. Não existe unidade fora da Verdade. Comprometer a verdade em nome da unidade conduz a discórdia, conflito, cisma. Como habitualmente, por detrás de cada herege encontra-se uma autoridade civil com uma agenda própria... um lobby...

  3. A condenação do erro tardou... mas chegou. Aliás, estas polémicas acabam sempre por resultar num reforço da Fé (ver também a história do Papa João XXII).


  4. Durante 77 anos os católicos vulgares esperaram em vão pelo fim desta confusão. Tiveram que suportar a condenação, a perseguição, o martírio e o convívio com o joio do erro.

  5. A condenação de Honório foi feita em concílios ecuménicos e pelos Bispos de Roma que lhe sucederam.

  6. A condenação ex cathedra do erro e do Papa Honório I e a substituição da hierarquia monofisita foram condição necessária mas não suficiente para extinguir esta heresia. Mas a paciência tudo alcança ...

  7. Se o Papa Honório I tivesse cumprido o seu papel e confirmado os irmãos na Fé (Lc 22, 32), muito mal se poderia ter evitado. Mas se Deus o permitiu foi para que desse mal resultasse um bem maior.

Fonte principal: Chapman, John. "Pope Honorius I." The Catholic Encyclopedia. Vol. 7. New York: Robert Appleton Company, 1910. (Nihil Obstat. June 1, 1910. Remy Lafort, S.T.D., Censor. Imprimatur. +John Cardinal Farley, Archbishop of New York.)
ACTUALIZAÇÕES

[140404] Introduzi citações do Concílio de Constantinopla III, das palavras dos Papas João IV e S. Leão II, a partir dos respectivos artigos da Catholic Encyclopedia.

[140407] Introduzi referências ao monofisitismo e à história da polémica que levou à intervenção de Honório. Nova secção sobre a perseguição aos defensores da Fé. Reformulei a "moral da história" em conformidade. Estas referências foram retiradas do artigo sobre o Monotelismo da Catholic Encyclopedia. Corrigi igualmente alguns erros de ortografia e aritmética (hopefuly).

[140409] Acrescentei a secção "Uma tentativa de apaziguamento" e alterei as secções anterior e posterior em conformidade.

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