20.4.14

O "Efeito Francisco" na América Latina

No passado dia 16/04/2014, a agência Reuters noticiou os resultados de um estudo da Latinobarómetro com o título "Las religiones en tiempos del Papa Francisco" [pdf].

Na sequência do despacho da Reuters, vários orgãos de informação internacionais noticiaram estes resultados (ver p.ex. aqui e aqui).

Em geral é referido que, desde 1995, o número de católicos tem vindo a diminuir na América Latina devido à concorrência protestante ("evangélicos"). Nos países mais prósperos (Chile e Uruguai) aumentou também o "secularismo". O único "efeito Franciso" mencionado é o aumento da "confiança" na instituição Igreja Católica. Os artigos também referem alguns "lugares comuns" sobre a Igreja que no entanto não são mencionados no relatório original.

A leitura do dito relatório permite concluir que os seus autores consideram que o tempo decorrido desde a eleição do Papa Bergoglio não permite ainda identificar quaisquer "efeitos Francisco". Quando muito, referem os autores deste relatório, terá aumentado a confiança dos Católicos da América do Sul e Central na Igreja.

É possível, no entanto, utilizar este estudo para avaliar a evolução da Igreja nos vários países da América Latina nos últimos 20 anos.


Um efeito Bergoglio na Argentina? Uma prestação mediana num cenário de declínio e crescente desinteresse

Entre 1995 e 2013, a percentagem de respondentes que se identificaram como Católicos na Argentina passou de 87% para 77%, uma queda de 10 pontos percentuais. Em média, na América do Sul (e México) a percentagem de Católicos desceu de 82% para 72%, os mesmos 10 pontos percentuais de queda. No total da América Latina, o número de católicos diminuiu 13 pontos percentuais.


De acordo com este indicador, a performance quantitativa da Igreja na Argentina é relativamente positiva. Apesar do significativo declínio, mais de três quartos da população ainda se dizem Católicos. Este resultado permite que os autores do estudo incluam a Argentina no grupo dos 10 países latino-americanos (em 18) classificados como "dominados pelo catolicismo".

No entanto, este resultado esconde uma realidade mais negativa.

A Argentina é um dos 3 países latino-americanos onde a prática religiosa entre Católicos é mais reduzida. Apenas 32% dos Católicos se dizem praticantes ("muito praticantes" ou "praticantes"). Ou seja, de facto - e quando muito - os Católicos na Argentina são 25% da população [32% de 77%].


Por outro lado, a Argentina é o país com a 3ª maior percentagem de ateus, agnósticos e sem religião (13%), apenas atrás do Chile e do Uruguai.



O "efeito Maradiaga" nas Honduras: candidato a coordenador do Titanic

Um país que se destaca neste estudo são as Honduras, país onde o Cardeal Maradiaga tem exercido uma influência preponderante. Arcebispo de Tegucigalpa desde 1993, presidente da conferência episcopal, foi anteriormente bispo auxiliar (desde 1978 !) e presidente da CELAM. Foi escolhido pelo Papa Francisco para coordenador do grupo de 8 cardeais encarregado de estudar a reforma da cúria.

Citação directa dos autores do estudo (.p. 9):
"El caso más emblemático de cambio en las creencias religiosas en los últimos 17 años desde que Latinobarómetro comienza sus mediciones es el de Honduras.

En total el catolicismo en Honduras pierde 58% puntos porcentuales de ventaja frente a los evangélicos y un total de 29 puntos porcentuales de católicos.

En 1996 Honduras tenía un 76% de católicos y un 12% de Evangélicos, con 64 puntos porcentuales de dominación del catolicismo (N de católicos- N de Evangélicos) y sin una religión que le compitiera. En 2013 hay un 47% de católicos y un 41% de evangélicos ahora hay sólo 6 puntos porcentuales entre las dos religiones.

El catolicismo en Honduras no sólo dejo de ser dominante sino que ahora tiene el mismo peso que el evangelismo. Este es el cambio más rápido y fuerte en creencias religiosas de los 18 países desde 1996.

... hay una verdadera emigración de una religión a otra.
"
Entre os católicos hondurenhos, 55% diz-se praticante, enquanto que entre os "evangélicos" a percentagem de praticantes é de 65%. Aplicando estas percentagens às anteriores respostas, conclui-se que o catolicismo se tornou, de facto, a 2ª religião dos hondurenhos.


Brasil: depois do carnaval teológico, um longo jejum quaresmal

Os cardeais brasileiros tiveram um papel preponderante na eleição do Papa Francisco, têm um acesso privilegiado a S. Marta e conseguiram colocar os seus homens em posições chave da cúria romana.

Os resultados obtidos revelam pensamento estratégico, capacidade organizativa, qualidades de liderança.

No entanto, apesar dos evidentes predicados da sua hierarquia, o catolicismo no Brasil não atravessa um período de ouro ...

Em 2013 63% da população dizia-se católica, menos 15 pontos percentuais do que em 1995. É no Brasil que os "evangélicos" apresentam o seu resultado mais importante entre os países da América do Sul (21%).

Os autores do estudo, acrescentam o seguinte comentário (p. 14):
"El caso de Brasil es particular ... Se observa la pérdida de dominación del catolicismo. Esto porque en Brasil junto con un aumento de los evangélicos, están los agnósticos o sin religión con un 11% y las religiones minoritarias... En total entonces para mirar cuanto domina el catolicismo en Brasil hay que sumar al 21% de evangélicos, el 11% sin religión así como el 4% de “otras”, con un total de 35%.

Entonces, si bien Brasil tiene un 63% de católicos ... el catolicismo es una religión mayoritaria, no dominante, que tiene al frente una diversificación de las creencias, así como un proceso de secularización de manera simultánea.
"


O aumento da confiança na Igreja Católica

Como se referiu anteriormente, de acordo com este estudo, a confiança na Igreja Católica entre os Católicos latino-americanos subiu de 69% em 2011 para 78% em 2013. É este o único "efeito Francisco" eventualmente identificado pelos autores do estudo.

Não será um resultado inesperado tendo em conta a aura positiva que os media criaram à volta do novo Pontífice.

É necessário, no entanto, qualificar este resultado.

Se a confiança na Igreja Católica aumentou de 69% para 78% entre 2011 e 2013, a confiança dos "evangélicos" nas suas "igrejas" aumentou de 67% para 81% no mesmo período.

Ou seja, é possível que este indicador tenha sido influenciado por outros factores que não a inauguração de um novo pontificado.

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