30.11.14

Pascendi : Um Resumo - Pe. Godfrey Carney (1998)

[Tradução para português com o auxílio do google translate do original em Inglês disponível aqui]

Quantos de nós lemos a famosa carta encíclica Pascendi Dominici Gregis ("Alimentar o rebanho do Senhor") ? Eu tinha já ouvido falar dela e tinha até lido alguns excertos. E por quatro vezes fiz o Juramento contra o Modernismo. Mas só agora, depois de velho, é que a li até ao fim.

É uma obra surpreendente escrita em 1907 pelo Papa São Pio X e é um vigoroso contra-ataque contra o Modernismo na Igreja Católica. Ao lê-la, sinto a angústia de um Pastor da Igreja Universal, homem gentil e de grande coração, perante esta traição viciosa que veio de dentro da própria Igreja.

Na introdução, ele conta-nos como tentou de várias maneiras persuadir os responsáveis de forma bondosa e serena. Mas, por fim, vendo que todos os seus esforços eram em vão e que permanecer em silêncio seria "um crime", sentiu-se forçado a "expor diante de toda a Igreja as verdadeiras cores daqueles homens que tinham assumido este mau disfarce ". O pastor deve advertir o seu rebanho contra um veneno mortal, e alimentá-lo com a Verdade.


Anti-Intelectual e Agnóstico

O Papa verificou que as doutrinas modernistas apareciam dispersas e separadas, de modo a darem de si uma aparência de questionamento e incerteza, mas concluiu que, na realidade, elas articulam-se e formam um sistema. Passa então a agrupr as várias doutrinas. E fá-lo de froma profunda e magistral.

S. Pio X estuda o Modernista nas suas muitas personalidades - como filósofo, crente, teólogo, crítico, apologista, reformador. Na filosofia, a hipótese inicial (de entre muitas) é desastrosa para o resto do sistema, e contradiz frontalmente a doutrina definida do Concílio Vaticano I, que afirma que "o único verdadeiro Deus, o nosso criador, pode ser conhecido pela luz da razão por meio das coisas que foram criadas ". O Modernismo nega tudo isto. Afirma antes que a razão humana se encontra totalmente confinada ao campo dos fenómenos - ou seja, ao que pode ser apercebido pelos sentidos, e por isso não pode elevar-se até Deus. Isso exclui por completo a Teologia Natural, os motivos de credibilidade, e toda a revelação externa.

É puro agnosticismo, próximo do ateísmo. Deus e tudo o que é divino ou miraculoso ou sobrenatural, deve ser excluído da ciência e da história, especialmente da história Bíblica, tanto no Antigo como no Novo Testamento.



A Fé como um sentimento difuso

Então de onde vem a religião? A religião encontra-se no homem. É uma imanência. Encontramos Deus no sentimento religioso, um sentimento que se eleva do subconsciente, um movimento do coração.

A isto é o que o modernista chama Fé. Não é o que a Doutrina Católica ensina - "A fé é um ato do intelecto comanda pela vontade que dá o seu assentimento à revelação de Deus, porque Deus é a Verdade". Não. Esse caminho está bloqueado para o Modernista pelo seu próprio agnosticismo. A fé é um sentimento no coração. O sentimento religioso gera experiência religiosa. Isto é a revelação. Este sentimento religioso é a fonte de toda a religião, de todos os tipos de religião, incluindo a Religião Católica. Não existe revelação externa.


A Bíblia é uma expressão de experiências - as experiências sentimentais religiosas dos patriarcas, dos profetas, de Cristo que foi o maior profeta, mas apenas um homem, um homem de sentimento religioso excepcional. De Seu sentimento religioso, como uma planta de uma semente, emana de alguma forma a Igreja. Assim também os seus dogmas e os seus Sacramentos.

Os dogmas são fórmulas produzidas pela razão que reflecte sobre o sentimento religioso (e aqui é permitida a entrada da razão [intelecto] no processo). Estes dogmas são apenas símbolos, fórmulas imperfeitas e, portanto, estão sujeitas, como tudo o resto, à evolução. Eles podem mudar e devem mudar, de acordo com os tempos e circunstâncias, e de acordo com as necessidades individuais ou colectivas resultantes de diferentes facetas do sentimento religioso interior. O Magistério da Igreja existe para fornecer um elemento conservador, formando um sentimento comum ou consciência ou fé colectivas. Quando têm lugar mudanças evolutivas progressistas na consciência colectiva, então o Magistério deve-se curvar perante ela e chegar a um compromisso (como numa democracia).

Os sacramentos são símbolos, decorrente da necessidade de dispor de algumas manifestações visíveis e sensíveis da religião, e um meio de propagá-la.


Síntese de todas as heresias: Destruidor de todas as religiões

Tentei, muito desadequadamente, comprimir a longa e detalhada análise do Papa num espaço muito curto.

O ponto principal que deve impressionar o leitor desta análise é este: Um sistema que coloca de lado a inteligência humana, a potência mais elevada do homem, e coloca no seu lugar o sentimento, uma emoção, destrói desta forma a sua própria credibilidade. A gratuita, preconceituosa e blasfema divisão entre "o Cristo da fé", e "o Cristo da história", destaca um absurdo. Esta separação entre a Fé e a filosofia, a ciência e a história, significa que um modernista, enquanto filósofo, historiador e crítico, pode ser completamente agnóstico sobre a religião, e ao mesmo tempo, apoiando-se no seu sentimento interior, pode pregar o que soa como um sermão Católico.

O Modernismo torna este absurdo possível ao limitar o conhecimento humano ao mundo cognoscível, e a fé ao mundo incognoscível. A ciência e a Fé nunca se encontram; não há conflito entre elas. Assim, é possível afirmar que Jesus no mundo da realidade era apenas um homem e, simultaneamente, no mundo da fé pode-se rezar a Jesus enquanto Deus.

Foi esta a proposta de renovação da religião: a sua adaptação à mente moderna.

No final da sua longa exposição sobre esta heresia, o Papa escreve:
"E como pode alguém que examine todo o sistema ficar surpreendido que nós o classifiquemos como a síntese de todas as heresias? Se tentássemos recolher todos os erros contra a Fé e concentrar a seiva e substância de todos eles num único erro, não seria possível ter mais sucesso que os Modernistas. Não, eles fizeram mais do que isto, visto que o seu sistema significa a destruição, não apenas da religião católica, mas de todas as religiões".
Em seguida, o Papa sublinha alguns pontos:

Sentimento: Tirai a inteligência, e o homem, já de inclinado a seguir os sentidos, torna-se o seu escravo. O senso comum permanece sempre, e o bom senso diz-nos que o sentimento - emoção - se revela um estorvo ao invés de uma ajuda na busca da verdade. O sentimento, quando a inteligência não está lá para orientá-lo, vai enganar.

Experiência - que significa intensidade no sentimento, não acrescenta absolutamente nada ao sentimento. Quanto mais intensa for, mais é sentimental.

Imanência: Será que isto deixa Deus e homem distintos um do outro, ou não? Se sim, porquê rejeitar a revelação externa? Se não, não caímos imediatamente no panteísmo ? (O panteísmo diz que o mundo material é Deus. "Pan" em grego significa "tudo". "Theos" significa "Deus". Os cristãos acreditam, é claro, que Deus o Criador é distinto do mundo que Ele fez. O mundo está no Tempo. Deus é eterno, a Suprema Causa Primeira de todas as criaturas.)


Causas e Métodos

Depois, o Papa volta-se para as causas do Modernismo. As causas remotas, diz ele, são a curiosidade e orgulho. Curiosidade - o desejo de novidade, coisas novas, mudança, Mais importante é o orgulho, que cega a Alma. O "orgulho", diz ele, "está no modernismo como na sua própria casa." Nos modernistas, o orgulho diz: "Nós não somos como o resto dos homens", nós somos académicos, peritos, aqueles que sabem. O orgulho desperta neles a desobediência e o completo desrespeito pela autoridade.

A principal causa intelectual do Modernismo, diz o Papa, é a ignorância. A ignorância da escolástica e da tradição da Igreja. Porque eles abraçaram as falsas filosofias modernas, rejeitando com desprezo a filosofia perene que lhes permitiria reconhecer a confusão e os sofismas do seu pensamento.

O seu método consiste em cobrir de desprezo os obstáculos que estão no seu caminho - a filosofia escolástica, a autoridade dos Padres da Igreja, a Tradição e o Magistério da Igreja. Em relação a estes travam uma guerra implacável, usando escritos, posições editoriais, cargos de ensino em universidades e seminários, ganhando os jovens com o glamour das suas novidades, descartando aqueles que se lhes opõem como ignorantes, teimosos e ultrapassados.


Remédios

O Papa propõe, finalmente, soluções rigorosas. Ele impõe aos Bispos do mundo, e também aos superiores, e àqueles que têm autoridade sobre a educação, que tenham a máxima diligência na promoção de estudos suportados em bases sólidas, sobretudo a filosofia escolástica de São Tomás de Aquino. Ele solicita ainda que exerçam vigilância sobre os professores nomeados para ensinar aqueles que se aproximam do sacramento da ordem, sobre as publicações introduzidos seminários e escolas, e muito mais.


O Santo Padre fez acompanhar tudo isto do Juramento contra o Modernismo em 1910, juramento que deveria ser proferido por todos antes da ordenação, da indução como pároco e antes de assumirem outros cargos de responsabilidade. Ele também fundou em Roma o Instituto Bíblico para o estudo das escrituras.

O Papa termina a sua encíclica com um fervoroso pedido de força e coragem a Jesus Cristo, o Autor e Consumador da nossa Fé, e à Virgem Imaculada, a destruidora de todas as heresias.


Depois da tempestade: Cinquenta anos de Unidade, Clareza e Crescimento

Não é necessário acrescentar que ao ler esta poderosa encíclica eu senti uma sensação de já ter estado aqui antes, uma certa familiaridade. O leitor vai perceber porquê, é claro. Sim, o Papa Pio X fez o seu melhor para extirpar este cancro. Tenho ouvido dizer que ele expressou o temor de que haveria uma recaída. As palavras de Macbeth vêem-me à memória - "parámos a cobra, mas não matámos. Ela irá aproximar-se e ser ela mesma."

Na verdade, esta carta é estranhamente actual. Poderia ter sido publicada esta manhã (com alguma moderação na fraseologia, sem dúvida). Porque, infelizmente, o Modernismo reapareceu mais forte e mais generalizada do que antes. Está disfarçado sob a ficção do "espírito do Concílio Vaticano II," e ataca de novo.

Existem algumas modificações, mas é essencialmente a mesma coisa. Até mesmo as palavras usadas são praticamente as mesmos - "renovação", "símbolo", "experiência", "A experiência é a revelação", "as experiências da Páscoa dos Apóstolos", "a consciência dos primeiros cristãos" e assim por diante.


Depois da Pascendi uns poucos, que persistiram na dissidência, foram excomungados. Cerca de trinta sacerdotes deixaram a igreja. Mas muitos outros submeteram-se e retornaram à Verdade Católica. Talvez a carta do Papa tivesse sido um espelho no qual eles se reviram.

Esta carta deu à Igreja cerca de 50 anos de unidade, clareza e crescimento em realidade. Agradeço a Deus o facto de que, durante esse boa temporada, eu fui ensinado, treinado, e ordenado.

Que todos nós possamos desfrutar de um outro Verão como este ... e rapidamente !


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