2.4.15

Obras de Misericórdia corporais e espirituais / Corporal and Spiritual Works of Mercy

A Misericórdia, tal como é aqui entendida, é uma virtude que influencia a vontade no sentido da compaixão e, se possível, alívio do infortúnio de outrém. S. Tomás de Aquino ensina que apesar da misericórdia o produto espontâneo da caridade, deve ser considerados uma virtude especial disningível da primeira. De facto, os escolásticos ao catalogarem esta virtude consderam-na em referência À qualidade da justiça principalmente porque, como a justiça, ela controla as relações entre distintas pessoas. É, como eles dizem, ad alterum. O seu motivo é o sofrimento que se mabifesta no outro, particularmente na medida em que esta condição é considerada, pelo menos malgum sentido, involuntária. Obviamente, a necessidade a socorrer pode ser coproral ou espiritual. Assim, é costume enumerar tanto as obras de caridade corporais como as espirituais.

A enumeração tradicional das obras de misericórdia corporais é a seguinte:

  • Dar de comer a quem tem fome;
  • Dar de beber a quem tem sede;
  • Vestir os nus;
  • Dar pousada aos peregrinos;
  • Assistir aos enfermos;
  • Resgatar os captivos;
  • Enterrar os mortos.

As obras de misericórdia espirituais são:
  • Ensinar os ignorantes;
  • Dar bom conselho;
  • Corrigir os pecadores;
  • Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
  • Perdoar as injúrias;
  • Consolar os aflitos;
  • Rogar a Deus por vivos e defuntos.
Destas classificações pode concluir-se que as
obras de misericórdia coincidem praticamente com as várias formas de esmola. É assim que S. Tomás as considera. A palavra esmola é mesmo uma corrupção do grego eleemosyne (misericórdia).

A prática das obras de caridade não é meramente um conselho abstracto; existe também um preceito estrito imposto pela a lei natural e pela lei divina positiva que impõe a sua prática. Que a lei natural prescreve obras de caridade deriva do princípio que devemos tratar os outros como a nós mesmos. O mandamento Divino é apresentado nos seus termos mais rigorosos e obrigatórios por Cristo, e o seu incumprimento é penalizado com a suprema pena de condenação eterna (Mt 25:41): "Em seguida dirá aos da esquerda: 'Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.", etc.


É certo que aqui são mencionados directa e explicitamente apenas as obras coprorais de misericórdia. Mas, como as obras de misericórdia espirituais tratam de uma necessidade cuja satisfação é ainda mais imperativa e eficiente no que respeita ao fim último da criação do homem, deve supor-se que estas advertências se estendem também a elas. Por outro lado, existem referências directas de Cristo a obras tais como a correcção fraterna (Mt 18:15) e o perdão dos pecados (Mt 6:14).

Deve recordar-se, contudo, que este é um preceito afirmativo, isto é, é sempre obrigatório, mas nem sempre operativo, por falta de matéria ou ocasião ou circunstâcias adequadas. Obriga, como dizem os teólogos, semper sed non pro semper. Portanto, em geral, pode dizer-se que que a determinação da sua efectiva obrigatoriedade num caso específico depende em larga medida num grau de sofrimento ou necessidade e da capacidade ou condição daquele que tem a obrigação em causa. As limitações práticas deste preceito são facilmente identificáveis no que diz respeito ao cumprimento das obras de misericórdia corporais. Estas são tratadas no artigo sobre a Esmola.


Da mesma forma, a lei que impõe as obras de misericórdia espirituais está sujeita em circunstãncias individuais a importantes reservas.Por exemplo, pode acontecer facilmente que seja necessário algum tacto ou prudência ou alguma superioridade para proceder à frequentemente difícil tarefa da correcção fraterna. Da mesma forma, instruir os ignorantes, dar bom conselho e consolar os aflitos nem sempre fará parte da competência de todos. Suportar com paciêcnia os pecados alheios, perdoar as ofensas e rezar pelos vivos e mortos são obras a que, nas ocasiões próprias, ninguém se poderá eximir com a desculpa de não possuir algum dom especial que seja requerido para o seu cumprimento. Estão evidementem ao alcance de todos.

Não deve ser esquecido que as obras de misericórdia exigem mais do que uma base humanitária se se pretende que estas sirvam de instrumento da nossa salvação eterna. A intenção adequada é indispensável e esta deve ter as suas raízes na ordem sobrenatural.

Finalmente, é interessante notar que em diferentes eras da história da Igreja foram instituídas duas ordens religiosas para o exercício da 6ª obra de misericórdia corporal. No ano de 1198, os Trinitários foram fundados por S. João de Matha e por S. Félix de Valois, e apenas vinte anos mais tarde S. Pedro Nolasco e S. Raimundo de Peñaforte estabeleceram a Ordem de Nossa Senhora das Mercês. Ambas estas comunidades tiham como objectivo principal o resgate de Cristãos capturasdos pelos infiéis. Na instituição religiosa fundada por S. Pedro Nolasco, os membros faziam o quarto voto de se entregaram em troca das pessoas que não fosse possível redimir de outra forma.

Delany, J. (1911). Corporal and Spiritual Works of Mercy. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Retrieved April 2, 2015 from New Advent: http://www.newadvent.org/cathen/10198d.htm
Mercy as it is here contemplated is said to be a virtue influencing one's will to have compassion for, and, if possible, to alleviate another's misfortune. It is the teaching of St. Thomas Aquinas that although mercy is as it were the spontaneous product of charity, yet it is to be reckoned a special virtue adequately distinguishable from this latter. In fact the Scholastics in cataloguing it consider it to be referable to the quality of justice mainly because, like justice, it controls relations between distinct persons. It is as they say ad alterum. Its motive is the misery which one discerns in another, particularly in so far as this condition is deemed to be, in some sense at least, involuntary. Obviously the necessity which is to be succoured can be either of body or soul. Hence it is customary to enumerate both corporal and spiritual works of mercy.


The traditional enumeration of the corporal works of mercy is as follows:

  • To feed the hungry;
  • To give drink to the thirsty;
  • To clothe the naked;
  • To harbour the harbourless;
  • To visit the sick;
  • To ransom the captive;
  • To bury the dead.

The spiritual works of mercy are:
  • To instruct the ignorant;
  • To counsel the doubtful;
  • To admonish sinners;
  • To bear wrongs patiently;
  • To forgive offences willingly;
  • To comfort the afflicted;
  • To pray for the living and the dead.

It will be seen from these divisions that the works of mercy practically coincide with the various forms of almsgiving. It is thus that St. Thomas regards them. The word alms of course is a corruption of the Greek eleemosyne (mercy).

The doing of works of mercy is not merely a matter of exalted counsel; there is as well a strict precept imposed both by the natural and the positive Divine law enjoining their performance. That the natural law enjoins works of mercy is based upon the principle that we are to do to others as we would have them do to us. The Divine command is set forth in the most stringent terms by Christ, and the failure to comply with it is visited with the supreme penalty of eternal damnation (Matt. 25:41): "Then he shall say to them also that shall be on his left hand: Depart from me, you cursed, in everlasting fire which was prepared for the devil and his angels. For I was hungry, and you gave me not to eat; I was thirsty, and you gave me not to drink. I was a stranger, and you took me not in; naked, and you covered me not; sick and in prison, and you did not visit me", etc.

Here it is true there is mention directly and explicitly of only the corporal works of mercy. As, however, the spiritual works of mercy deal with a distress whose relief is even more imperative as well as more effective for the grand purpose of man's creation, the injunction must be supposed to extend to them also. Besides there are the plain references of Christ to such works as fraternal correction (Matthew 18:15) as well as the forgiveness of injuries (Matthew 6:14).

It has to be remembered however that the precept is an affirmative one, that is, it is of the sort which is always binding but not always operative, for lack of matter or occasion or fitting circumstances. It obliges, as the theologians say, semper sed non pro semper. Thus in general it may be said that the determination of its actual obligatory force in a given case depends largely on the degree of distress to be aided, and the capacity or condition of the one whose duty in the matter is in question. There are easily recognizable limitations which the precept undergoes in practice so far as the performance of the corporal works of mercy are concerned. These are treated in the article on Alms and Almsgiving.

Likewise the law imposing spiritual works of mercy is subject in individual instances to important reservations. For example, it may easily happen that an altogether special measure of tact and prudence, or, at any rate, some definite superiority is required for the discharge of the oftentimes difficult task of fraternal correction. Similarly to instruct the ignorant, counsel the doubtful, and console the sorrowing is not always within the competency of every one. To bear wrongs patiently, to forgive offences willingly, and to pray for the living and the dead are things from which on due occasion no one may dispense himself on the pleas that he has not some special array of gifts required for their observance. They are evidently within the reach of all.

It must not be forgotten that the works of mercy demand more than a humanitarian basis if they are to serve as instruments in bringing about our eternal salvation. The proper motive is indispensable and this must be one drawn from the supernatural order.

Finally it is interesting to note that for the exercise of the sixth among the corporal works of mercy two religious orders have at different times in the history of the Church been instituted. In the year 1198 the Trinitarians were founded by St. John of Matha and St. Felix of Valois, and just twenty years later St. Peter Nolasco and St. Raymond of Pennafort established the Order of Our Lady of Ransom. Both of these communities had as their chief scope the recovery of Christians who were held captive by the infidels. In the religious body which owes its origin to St. Peter Nolasco, the members took a fourth vow to surrender their own persons in place of those whom they were not otherwise able to redeem from slavery.

Delany, J. (1911). Corporal and Spiritual Works of Mercy. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Retrieved April 2, 2015 from New Advent: http://www.newadvent.org/cathen/10198d.htm

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