16.6.16

Da hipótese teológica de um Papa herético (Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira)

Foi agora publicado em Itália o estudo de Arnaldo Xavier da Silveira intitulado "Da Hipótese teológica de um Papa herético" (ver notícia na Corrispondenza Romana").


Trata-se da primeira parte de um estudo mais vasto, escrito nos anos 70, cuja republicação é plenamente justificada pelo momento que a Igreja atravessa.

Para quem, nos últimos quase três anos, perante as muitas perplexidades provocadas pelas palavras, 'gestos' e omissões do Papa Francisco - e na ausência de alternativa -, andou pela Internet à procura de respostas, nem o autor da obra (bio, site), nem o texto são completamente desconhecidos.

Aliás, existem mesmo várias edições em português desta obra disponíveis na Internet (embora neste momento só consiga encontrar esta - ver pp. 1-61).

Transcrevo de seguida algumas das conclusões deste estudo recordando que se trata de um texto escrito há quase 50 anos, quando - apesar da confusão reinante na altura - a hipótese da eleição de um Papa Francisco se encontrava circunscrita ao reino da (má) ficção:

  • "cremos que um exame cuidadoso da questão do Papa herege, com os elementos teológicos de que hoje dispomos, permite concluir que um eventual Papa herege perderia o cargo no momento em que sua heresia se tornasse "notória e divulgada de público". E pensamos que essa sentença não é apenas intrinsecamente provável, mas certa, uma vez que as razões alegáveis em sua defesa nos parecem absolutamente cogentes. Ademais, nas obras que consultamos, não encontramos argumento algum que nos persuadisse do oposto.

    De qualquer forma, outras sentenças permanecem extrinsecamente prováveis, visto que têm a seu favor autores de peso. Logo, na ordem da ação concreta não seria lícito optar por uma determinada posição, querendo impô-la sem mais. É por isso que, como dissemos de início, convidamos os especialistas na matéria a reestudarem a questão. Só assim será possível chegar a um acordo geral entre os teólogos, de modo que uma determinada sentença possa ser tida como teologicamente certa.
    "

  • "Os autores que admitem a possibilidade de um Papa cismático, em geral não hesitam em afirmar que em tal hipótese, como na do Papa herege, o Pontífice perde o cargo. A razão disso é evidente: os cismáticos estão excluídos da Igreja, do mesmo modo que os hereges.

    Nesta matéria, Suarez constitui exceção, ao sustentar que o Papa cismático não está privado nem pode vir a ser privado do cargo; sua opinião entretanto não merece particular atenção, uma vez que se baseia na tese suareziana, hoje por todos abandonada, de que os cismáticos, mesmo públicos, não deixam de ser membros da Igreja.

    Assim sendo, podemos concluir, com Caietano que:
    '(...) a Igreja está no Papa quando este se comporta como Papa, isto é, como Cabeça da Igreja; mas caso ele não quisesse agir como Cabeça da Igreja, nem a Igreja estaria nele, nem ele na Igreja.'
    Ademais, é oportuno lembrar que quem é pertinaz no cisma, praticamente não se distingue do herege; que nenhum cisma deixou de excogitar alguma heresia a fim de justificar sua separação da Igreja; que o cisma constitui uma disposição para a heresia; e que o cismático, segundo o Direito Canônico e o Direito Natural, é suspeito de heresia".

  • "De todo o exposto se infere que, em princípio, não repugna a existência de erros em documentos não infalíveis do Magistério – mesmo do Magistério pontifício e conciliar.

    Sem dúvida, tais erros não podem ser propostos duravelmente na Santa Igreja, a ponto de colocarem as almas retas no dilema de aceitar o ensinamento falso, ou romper com Ela. Pois, se assim fora, o inferno teria prevalecido contra a Igreja. No entanto, é possível, em princípio, que por algum tempo, sobretudo em períodos de crise e de grandes heresias, se encontre algum erro em documentos do Magistério.

    ... O que, de fato, buscamos ao evidenciar a possibilidade de erro em documentos não infalíveis, é auxiliar o esclarecimento de problemas de consciência e os estudos de muitos antiprogressistas que, por ignorarem tal possibilidade, se sentem freqüentemente perplexos.
    "

  • "Em face das razões expostas, não vemos como excluir, em princípio, a hipótese de heresia em documento oficial do Magistério pontifício ou conciliar não revestido das condições que o tornariam infalível.

    Conseqüentemente, se em documento pontifício ou conciliar oficial não infalível for alguma vez encontrada uma heresia, não se há de julgar, com isso, que o Espírito Santo faltou à sua Igreja.

    Ou que o absurdo da hipótese obrigue a encontrar, a todo transe, uma interpretação não herética para o texto indicado como oposto à fé.
    Ou, ainda, que a essas circunstâncias se aplicaria o dito célebre de Santo Inácio: "O que a nossos olhos se apresenta como branco, tê-lo-íamos por preto, se assim o declarasse a Santa Igreja."

    Concluímos: o admirável princípio inaciano, expressão acabada da fé na infalibilidade do Papa e da Igreja, vale sem restrições para os pronunciamentos do Magistério que envolvam a infalibilidade. Mas faltaria ao próprio "sentir com a Igreja" quem lhe atribuísse um alcance que a doutrina católica não justifica – interpretando-o, por exemplo, no sentido de que se deva aceitar sempre e incondicialmente, mesmo contra a evidência, todo e qualquer ensinamento não infalível do Magistério eclesiástico.
    "

  • "diante de um perigo próximo para a fé (Santo Tomás), podemos sustentar com toda a segurança que também [estes autores], seguindo as pegadas do Anjo das Escolas – para não dizermos as de São Paulo – autorizariam uma resistência pública [à Autoridade Eclesiástica].

    Se se vissem em face de uma agressão às almas (São Roberto Bellarmino) ou de um escândalo público (cf. Cornélio a Lapide) em matéria doutrinária; ou de um Papa que se houvesse afastado do bom caminho (Santo Agostinho) por seus ensinamentos errôneos e ambíguos; ou de um crime público que redundasse em perigo para a fé de muitos (Santo Tomás) - como poderiam negar o direito de resistência e, se necessário, de resistência pública?"

1 comentário:

Basto disse...

Aqui João, a partir de 2:10':

https://www.youtube.com/watch?v=kAIOMf-xVvo

Em 1992...