20.12.17

A LEI DO PROGRESSO DOCTRINAL: "EXPOR E DECLARAR" (M. l'abbé Jean-Michel Gleize, Courrier de Rome, Novembre 2017)

[Tradução do original em Francês]

9. A transmissão do depósito da fé (Tradição), portanto, inclui a sua explicitação. O Concílio Vaticano I ensina o seguinte na constituição Dei Filius: "Fidei doctrina, quam Deus revelavit [...] tamquam divinum depositum Christi Sponsæ tradita é custodienda fideliter e declaranda infallibiliter" (n. 1).

A doutrina da fé que Deus revelou foi transmitida à Esposa de Cristo como um depósito divino, de modo que ele o preserva fielmente e torna seu significado explícito de maneira infalível. Assim, convém traduzir o termo latino "declarare", que significa precisamente "tornar mais claro".

Da mesma forma, a Constituição Pastor Aeternus diz que os soberano pontífices "eo assistente, traditam por Apostolos revelationem depositum fidei Seu custodirent sancte e exponerent fideliter" (n. 2). Os papas devem, com a assistência do Espírito Santo, conservar santamente  e explicar fielmente a revelação transmitida pelos apóstolos, isto é, o depósito da fé.

10. O Magistério conserva fielmente e piedosamente o depósito, na medida em que recorda constantemente o que já está explicitamente contido na depósito primitivo ou o que já foi explicitado por uma proposição anterior do Magistério.

Deve ainda explicitar infalivelmente o significado desse depósito ou explicitá-lo fielmente no sentido em que propõe de uma maneira conceptualmente distinta aquilo que estava até ao momento contido no depósito de maneira implícita e confusa.

11. Este segundo trabalho de explicitação foi descrito por S. Vicente de Lérins no seu Commonitorium, nos termos tomados pelo Concílio Vaticano I (n. 3). Mas S. Vicente de Lérins, em seguida, utiliza comparações biológicas que são inadequadas: "Que se trate da religião das almas a partir do desenvolvimento dos corpos; que se espalham e estendem suas proporções com os anos e, no entanto, permanecem constantemente os mesmos" (n. 4). Na verdade, o que está vivo cresce por meio da assimilação, no sentido de que é um progresso quantitativo possibilitado pela introdução de um elemento estranho, o alimento, que é transformado em substância dos vivos.

O "progresso" do dogma é bastante diferente porque consiste, na inteligência da Igreja, numa percepção mais distinta do que já está em acto no depósito da fé. "Este tipo de progresso é feito por pura desenvelopagem dos dados primitivos, sem ingerir nada do exterior" (n . 5).

Portanto, é necessário desistir das imagens biológicas e buscar exemplos num nível superior: o da ciência matemática, onde das definições do círculo e do triângulo resultam as suas propriedades por pura necessidade interna; o nível também da metafísica, onde sendo a infinidade de Deus postulada, resulta também necessariamente a sua presença íntima no coração de todas as coisas.

12. Mais precisamente, a diferença entre o desenvolvimento do dogma e o de um germe é enfatizada por Journet, que recorre aos estudos do Padre Allo (n. 6). "A relação da doutrina inicial com nossa síntese dogmática", observa o último, "de forma alguma é a de uma semente com um arbusto. Porque no caso do dogma, a semente era tão grande – ou maior - que a árvore".

Em outras palavras, a proporção da semente para a árvore, que é na ordem do crescimento propriamente dito, é a de uma relação de primeira ordem com base na quantidade, pela qual a árvore é medida pela semente e a semente pela árvore (n. 7).

A relação do depósito da fé com o dogma, que está na ordem do conhecimento, é a de uma relação de terceira ordem, baseada no facto de que um é medido pelo outro, não de acordo com sua quantidade, mas de acordo com seu ser e a sua verdade (n. 8). Esse tipo de relação não é recíproco, porque apenas um é medido pelo outro. Assim, o dogma é medido pelo depósito revelado, pois dele depende em seu sign[ificado], tal como a expressão mais distinta de um sentido inteligível dado depende desse significado inteligível, que deve significar de forma mais explícita.

Assim devemos entender a comparação desenvolvida por S. Vicente de Lérins: "O que cresce e progride [...] a inteligência, a ciência, a sabedoria, mas exclusivamente [...] no mesmo sentido". O crescimento (no sentido impróprio e metafórico do termo) não ocorre ao nível do significado e do pensamento, mas ao nível da inteligência desse significado. O texto da constituição Dei Filius diz ainda que "o significado dos dogmas sagrados que devem ser preservados em perpetuidade é aquele que nossa Mãe, a Santa Igreja, apresentou de uma vez por todas e nunca é possível afastar-se dele sob o pretexto ou em nome de uma compreensão mais profunda."  crescimento (no sentido impróprio e metafórico do termo) não ocorre ao nível do significado e do pensamento, mas ao nível da inteligência desse significado. O texto da constituição Dei Filius diz ainda que "o significado dos dogmas sagrados que devem ser preservados em perpetuidade é aquele que nossa Mãe, a Santa Igreja, apresentou de uma vez por todas e nunca é possível afastar-se dele sob o pretexto ou em nome de uma compreensão mais profunda." Uma compreensão mais profundada deve referir-se ao mesmo sentido, pois é esse sentido que é a sua medida.



Notas

1.DS3020. 
2.DS3070.
3. DS 3020.
4. Commonitorium, livre I, chapitre XXIII, Migne latin, t. L, col. 668 : « Imitetur animarum religio rationem corporum, quæ licet annorum processu numeros suos evolvant et explicent, eadem tamen quæ erant permanent ».
5. JOURNET, Le Message révélé, p. 73.
6. JOURNET, ibidem, p. 75, citant ERNEST ALLO, «Germe et ferment» dans Foi et système, 1907.
7. SAINT THOMAS D’AQUIN, Commentaire sur la Métaphysique d’Aristote, livreV, leçon 17, n° 1001.
8. ID., ibidem, n° 1003.
9.Apoc, XXII, 18.
10. Commentaire sur le Livre des Sentences de Pierre Lombard, livre I, division du texte du Prologue.

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