19.12.17

A transmissão do depósito da fé: Revelação e Tradição(M. l'abbé Jean-Michel Gleize, Courrier de Rome, Novembre 2017)

[Tradução do original em Francês]

5. O depósito de fé é objecto de uma dupla transmissão, não apenas humana mas divina. É primeiro objecto de uma primeira transmissão de Cristo aos apóstolos, por via de revelação (apocalypsis). É depois objeto de uma segunda transmissão dos apóstolos à Igreja por via da tradição (paradosis).

Sublinhe-se que essa dupla transmissão, pelo facto de ser divina e não humana, não é um processo de transmissão procedente dos homens do passado e dirigida aos homens do presente. Devemos entende-la formalmente como uma transmissão procedente de Cristo e dirigida aos apóstolos e dos apóstolos à Igreja (ou da igreja docente à igreja discente), para além do tempo.

O que foi transmitido foi transmitido de uma vez por todas e é por isso que "o significado dos dogmas sagrados que deve ser mantido para sempre é aquele que nossa Mãe, a Santa Igreja, apresentou de uma vez por todas".

6. A revelação leva ao depósito revelado tal como ele se encontra na inteligência coletiva dos apóstolos (n. 1). Este conhecimento é o de um significado profundo e total do mistério revelado, através de uma luz profética.

Os apóstolos tinham a inteligência definitiva (n. 2) de todos os mistérios, isto é, eles sabiam tão perfeitamente quanto possível o significado de todas as verdades reveladas.

Isso não significa que seu conhecimento fosse desde logo explicitado em fórmulas transmissíveis. Eles tinham um conhecimento imediatamente explicitável por eles próprios, mas não o explicitaram totalmente deixando esta tarefa aos seus sucessores assistidos pelo Espírito Santo.

Iluminados por um luz profética não transmissível, os apóstolos tinham dos mistérios um conhecimento total e excepcional, que excedeu em elevação tudo o que o Magistério da Igreja, assistido pelo Espírito Santo, poderia descobrir no decurso do tempo, ao explicar o significado das fórmulas imediatamente reveladas.

Essa incomparável perfeição de conhecimento apostólico é ensinado pelo Magistério, quando condena a proposição vigésima primeira do decreto Lamentabili: "A revelação constituindo o objetco da fé católica não terminou com os apóstolo" (n. 3).

Isso significa que os apóstolos tinham a inteligência completa de todos os sentido das fórmulas reveladas, e que depois deles a Igreja apenas pode descobrir, sem inventar outro significado que os apóstolos não teriam percebido. O conhecimento apostólico representa uma perfeição para a qual tende a Igreja sem poder alcançá-la, tal como o polígono tende para o círculo. Portanto, não pode ser o ponto de partida de um desenvolvimento no sentido estrito de este termo.

7. A tradição leva ao depósito revelado tal como é encontrado na inteligência da Igreja. O termo que designa, neste primeiro sentido, a ação de transmitir o depósito à Igreja (e não já aos apóstolos) chegou a designar, em um segundo sentido, o próprio depósito, como transmitido à Igreja.

A transmissão pode ser feita pela palavra oral ou pela palavra escrita. Os apóstolos usaram os dois métodos.

O termo tradição acabou por designar também, num terceiro sentido, o depósito revelado transmitido por via oral. O Concílio de Trento usa este terceiro sentido restrito quando distingue a Escritura de Tradições (n. 4).

Como bem demonstraram S. Roberto Belarmino (n. 5) e Franzelin (n. 6), a Tradição entendida neste terceiro sentido é anterior à Escritura do triplo ponto de vista da cronologia, extensão e regulação (n. 7). A transmissão oral do depósito foi feita antes da redacção das escrituras, transmite todo o depósito enquanto que a Escritura apenas transmite parte dela, deve servir como  regra para entender o significado das verdades transmitidas pelas Escrituras.

8. Os apóstolos conheceram o mistério de Cristo de uma maneira excepcional, na luz profética incomunicável de uma revelação. É neste luz que eles formaram e liam eles próprios os enunciados transmitidas por eles aos fiéis de seu tempo.

Eles penetraram toda a sua riqueza; eles poderiam ter, [explicitado, formulado, expressado] o que estava contido [no depósito] de forma ainda implícita, informulada, não expressa.

Mas não é assim com a Igreja depois deles. Os enunciados apostólicos são para eles os seus princípios, e não as conclusões. Eles já têm para ela um significado explícito, determinado e claro. Mas eles também são ricos de um significado implícito, ainda indeterminado, obscuro. Quanto mais o princípio é profundo, elevado e divino, quanto mais encerra consequência implícitas, virtualidades,  indeterminações; na medida em que são explícitados e clarificados, as suas determinações tornam-se inferiores em virtude e fecundidade (n. 8).

É por isso que declarações dogmáticas dos concílios, dos papas e dos teólogos são mais claras e precisas que os do depósito divino, mas ao mesmo tempo menos sugestivas, menos férteis, menos cheias de verdade. Existe de facto, excepto em Deus, uma incompatibilidade radical entre conhecimento distinto e conhecimento universal.

Por conseguinte, será necessário que a Igreja se mova do conhecimento universal (ou no estado implícito) e confuso a um conhecimento particular (ou no estado explícito) e distinto.

Haverá um "progresso" na compreensão do significado das verdades reveladas, mas não será um progresso feito por novas revelações; será a partir de agora um progresso devido a novas explicitações da revelação . Portanto, falaremos de progresso não da revelação mas do dogma.


Notas:

1. Devemos ouvi-los aqui como tal e, portanto, como iguais; não como membros da hierarquia eclesiástica (como papa e bispos) onde não são iguais.
2. Eph, III, 4 e III, 8.
3. DS 2021.
4. Concile de Trente, session IV, Décret sur les saintes Écritures et les Traditions, DS 1501 (Dz 783).
5. SAINT ROBERT BELLARMIN, Première Controverse, livre III, «De verbi Dei interpretatione», chapitre I et II ; livre IV, «De verbo Dei non scripto», chapitres 1-4, Opera omnia, éd. Pedaune Lauriel, 1872, p. 96-101 et 115-122.
6. JEAN-BAPTISTE FRANZELIN, La Tradition, thèse 21, n° 439-455, Courrier de Rome, 2008, p. 315-321.
7. CHARLES JOURNET (Le Message révélé. Sa transmission, son développement, ses dépendances, Desclée de Brouwer, 1963,p. 32-47 et Esquisse du développement du dogme marial, Alsatia, 1954, p. 31-40) conteste cette vérité qu’il désigne comme la «thèse de la juxtaposition » (Le Message révélé, p. 43) et dans laquelle il voit «les thèses classiques d’une certaine apologétique antiprotestante» (Esquisse, p. 33).
8. S. THOMAS, Summa Teológica, pars, pergunta 54, artigo 3.

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