18.12.17

O Depósito da Fé (M. l'abbé Jean-Michel Gleize, Courrier de Rome, Novembre 2017)

[Tradução do original em Francês]

  1. A origem da palavra "depósito" (depositum em latim; Parathèkè em grego) é escritural (n.1). Esta palavra foi retomada pelo Concílio do Vaticano I: este depósito de fé não é outro que a revelação transmitida pelos apóstolos.

  2. Este termo pode designar: em primeiro lugar, realidades divinas cujo conhecimento nos é transmitido, isto é, os mistérios sobrenaturais; em segundo lugar, enunciados conceptuais e verbais, cujo significado é garantido por Deus, e que são para nós o meio através do qual tomamos conhecimento destes mistérios.

    O nosso ato de fé diz respeito especificamente às realidades divinas, mas alcançadas por meio dos declarações reveladas. O depósito revelado é, portanto, o conjunto dos mistérios, tal como recebidos através de um conjunto de enunciados inteligíveis.

  3. Dois elementos são necessários para que um mistério seja objecto da nossa adesão: um elemento ontológico e um elemento cognitivo. Em primeiro lugar, é necessário que a enunciação desse mistério esteja realmente incluída no depósito revelado, e que tenha sido formulada, ou de maneira explicita, isto é, em termos claros e distintos, ou de uma forma implícita, isto é, em termos apenas equivalentes e confusos.

    Em segundo lugar, é necessário que a inclusão deste enunciação do mistério no depósito revelado nos seja manifestada por uma autoridade divina verídica e infalível, que é a do Magistério eclesiástico.

    Para ser o objecto do ato de fé divina, um mistério revelado pressupõe primeiro o significado de uma enunciação inteligível e depois uma leitura ou declaração autorizada do seu significado. É por isso que é comum, em teologia, distinguir loci continentes e loci declarantes. Os primeiras são as fontes de revelação, enquanto que os segundos são os critérios (n.2).

  4. Pode acontecer que, na prática, o primeiro elemento ultrapasse o segundo. A inclusão de uma verdade no depósito revelado pode ser percebida e transformar-se em objecto da nossa adesão, antes de ser manifestada pelo Magistério. Isso acontece quando a enunciação do mistério é suficientemente explícita, por exemplo, quando se trata da divindade de Cristo, da virgindade de Maria, da sua maternidade divina, da necessidade da graça.

    Pode ocorrer, também, na prática, que ocorra o oposto e que o segundo elemento ultrapasse o primeiro. A inclusão de uma verdade no depósito revelado é primeiro manifestada pelo Magistério, antes de ser percebida e transformada em objecto da nossa adesão. Isso acontece quando a enunciação do mistério é implícita, por exemplo, quando se trata da Imaculada Conceição ou da Assunção.

    Mas, independentemente do que pode ocorrer na prática, por direito e por princípio, o segundo elemento deve prevalecer sobre o primeiro, e o acto de fé deve ter por objecto (n.3) a enunciação do mistério (ou a verdade revelada) proposta pelo Magistério de a Igreja.


    Notas:

    1. I Tm, VI, 20 ; II Tm, I, 13-14.
    2. As "fontes" da Revelação são diferentes dos "monumentos" da Tradição e os "critérios" da revelação são diferentes dos "órgãos" da Tradição. Os monumentos são para a Tradição aquilo que as fontes são para a Revelação e os órgãos são para a Tradição o que os critérios são para a Revelação. O critério de R3evelação é Tradição e o órgão de A tradição é o magistério.
    3. Para os tomistas, este é o objecto formal final ou o quod do objecto formal. O objecto formal motivador ou o objecto formal quo é a autoridade de Deus reveladora, e não a proposta do Magistério.

Sem comentários: