22.12.17

O DISCURSO DE 11 de OUTUBRO de 2017 ou a TRADIÇÃO SEGUNDO FRANCISCO (M. l'abbé Jean-Michel Gleize, Courrier de Rome, Novembre 2017)

[Tradução do original em Francês]

14. Neste Discurso, o Papa Francisco usa um expressão que pareceria ir no bom sentido da doutrina católica recordada nas anteriores secções. "Em face dos novos desafios e perspectivas abertas à humanidade, é necessário e urgente que a Igreja exponha a novidade do Evangelho de Cristo, contido na Palavra de Deus, mas ainda não trazido à luz. É este tesouro, feito do novo e do velho de que falava Jesus quando dizia aos discípulos para ensinarem a novidade que dele emanava, sem abandonar o velho (ver Mt.XIII, 52)."

15. Mas é uma passagem muito isolada. Todo o contexto sugere obviamente uma concepção não católica da Tradição e do progresso do dogma.

16. Em vez de dizer "custodire et exponere" ou "custodire et declarare", o Papa diz: "Manter e continuar, é o objectivo da Igreja pela sua própria natureza, de tal forma que a verdade da proclamação do evangelho por Jesus atingirá a sua plenitude no final dos tempos". Encontra-se aqui uma ideia retirada do Concílio do Vaticano II e emprestada da constituição Dei Verbum, tal como é possível comprovar nesta outra passagem em que lhe é feita referência explícita: "A Igreja perpetua na sua doutrina, na sua vida e no seu culto e transmite a todas as gerações, tudo o que ela é, tudo o que ela acredita" (n. 1). Os padres conciliares não conseguiriam encontrar uma expressão sintética mais feliz para expressar a natureza e a missão da Igreja. Não é apenas na doutrina, mas também na vida e no culto que os crentes se podem tornar povo de Deus. A partir daqui, a Constituição dogmática sobre a Revelação Divina expressa a dinâmica interna do processo: Esta Tradição progride [...] cresce [...] tende constantemente para a plenitude da verdade divina, até que se cumpram nela as palavras de Deus. (n. 2)».

17. Quando se diz que "a Igreja tende sem cessar com o passar dos séculos para a plenitude da verdade, até que se cumpra nela as palavras de Deus", isto seria verdade na medida em que o conhecimento da revelação se torna mais perfeito, mais explícito por parte dos crentes; A causa deste progresso é a autoridade da igreja docente, que em nome de Deus, com a assistência do Espírito Santo e infalivelmente, explica as verdades reveladas e as expõe de forma mais precisa à crença dos fiéis. Mas, como ensina o Concílio Vaticano I na constituição Dei Filius, este progresso deve ser "no mesmo sentido". Não podemos conceber esse progresso no sentido de que, como explica Fanzelin (n. 3), "a revelação recebe diariamente novos incrementos - exactamente como no antigo Testamento, desde o início até Cristo e os apóstolos -, novas revelações vieram sem parar adicionar-se às anteriores". A tendência da Igreja para a "plenitude da verdade" e a realização "das palavras de Deus" mencionadas pela Dei Verbum no seu  nº 8 pode ser entendido como uma elaboração progressiva do depósito de fé por novas revelações. O texto não distingue entre a verdade revelado, no sentido ontológico, e a verdade da inteligência que penetra essas mesmas expressões, no sentido psicológico.

18. Mas o contexto da citação remove a ambiguidade no sentido errado e Francisco confirma-o dizendo que "não é apenas na doutrina, mas também na vida e no culto que os crentes podem tornar-se povo de Deus". Não se trata portanto da verdade, mas da vida e do devenir do povo de Deus. A tradição não deve ser entendida no sentido da transmissão de uma verdade inteligível, nem mesmo no sentido de que essa verdade evoluiria no seu significado. Deve ser entendido, em primeiro lugar,  no sentido da transmissão de uma vivência, de uma experiência. A verdade é então essa tradução inteligível, que muda e evolui mesmo no seu significado, enquanto tende para a sua plenitude de acordo com a experiência vivida. A tradição é a expressão da consciência do povo de Deus que progride constantemente. Esta não é já a expressão progressiva do mesmo significado da mesma verdade. É a expressão de uma progressão onde a verdade assume constantemente significados diferentes.

19. Este é o princípio herdado do concílio. As fórmulas muito visuais de Francisco apenas retiram as consequências, no seu estilo provocador ao qual estamos agora mal habituados: "A tradição é uma realidade viva e apenas uma visão parcial pode pensar que o depósito de fé é uma realidade estática! Não. A Palavra de Deus é uma realidade dinâmica, ainda viva, progredindo e crescendo em direcção a uma realização que os homens não podem impedir. [...] A Palavra de Deus não pode ser conservada na naftalina como se fosse uma manta velha da qual é preciso remover os parasitas! [...] Não podemos manter a doutrina sem a fazer avançar. Não podemos fechá-la numa leitura rígida e imutável, sem desprezar a acção do Espírito Santo. É essa palavra que devemos fazer nossa numa atitude de escuta religiosa, para que a nossa Igreja avance com o entusiasmo das origens, em direcção aos novos horizontes a que o Senhor nos chama."

20. E tudo o resto de sabor tradicional, retirado de S. Vicente de Lérins ou de S. Paulo inscreve-se numa lógica totalmente estranha ao seu pensamento, no que gostaríamos de qualificar como uma empresa de vergonhosa recuperação.  "O desenvolvimento harmonioso da doutrina exige no entanto, o abandono de tomadas de posições ligadas a argumentos que agora aparecem a partir de determinado momento contrários a uma nova compreensão da verdade cristã. Isto é o que já lembrava S. Vincente de Lérins: Mas talvez digamos: Não haverá, então, na Igreja de Cristo, qualquer progresso da religião? - Sim, deve haver, e considerável! Quem seria assim tão inimigo da humanidade, tão hostil a Deus, para se lhe tentar opor?".

21. E, claro, "esta lei de progresso, de acordo com o feliz fórmula de S. Vicente de Lérins pertence à condição particular da verdade revelada tal como esta é transmitida pela Igreja, e não significa absolutamente uma mudança de doutrina". Contradição inconsciente? Hipocrisia maquiavélica? Estratégia retórica? A verdade é muito mais simples.

22. A tradição segundo Francisco, é apenas a recuperação da Tradição de acordo com João Paulo II e Bento XVI. É suficiente perceber que ele relê tanto o motu proprio Ecclesia Dei afflicta de 2 de Julho de 1988, como o Discurso à Cúria de 22 de Dezembro de 2005. Ambos tomam como princípio o postulado modernista da Tradição viva. Bento XVI especialmente foi o seu porta-voz e teólogo. No seu discurso, o Magistério é apresentado como o órgão da "renovação na continuidade do sujeito único - Igreja, que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo no entanto, sempre o mesmo" (n. 4). Renovação evolucionista, onde a unidade do dogma e a Igreja não é já a unidade intertemporal da verdade objectiva, mas a unidade cronológica definida por referência ao sujeito presente da autoridade, ele mesmo garante da unidade de outro sujeito mais fundamental que é o único povo de Deus em marcha pelo tempo e que se exprime pela sua vivência. O presente do Magistério deve permanecer atento à inspiração presente dessa experiência. O papel do Magistério é garantir a continuidade dessa experiência, é o instrumento do Espírito, que fala às igrejas e que alimenta comunhão "assegurando a ligação entre a experiência da fé apostólica, vivida na comunidade original dos discípulos, e a experiência actual de Cristo em Sua Igreja" (n. 5). E o Espírito inspira primeiro directamente o povo inteiro. Haverá aqui outra coisa que não a concepção modernista descrita pela Encíclica Pascendi, onde o ato de fé é a expressão consciente de um sentimento religioso imanente e onde o magistério é o porta-voz da imanência colectiva, o órgão da comunidade eclesial do Povo de Deus, estabelecendo as fórmulas necessárias para a expressão actual da experiência comum?

23. É fácil falar de uma "renovação em continuidade "e dizer que a lei do progresso" não significa absolutamente uma mudança de doutrina. Mas ninguém conseguiu demonstrar até agora que a renovação do Vaticano II não quebrou a continuidade objectiva da Tradição da Igreja, nem que a doutrina não mudou. Porque, se o povo de Deus em marcha acaba por sentir que a misericórdia reclama uma mudança de atitude em relação à pena de morte, em nome de quem se poderia recusar dar substância a tal intuição? "O desenvolvimento harmonioso da doutrina exige no entanto, o abandono de tomadas de posições ligadas a argumentos que parecem a partir de determinado momento contrários a uma nova compreensão da verdade cristã." A Igreja deve expor a novidade do evangelho, mas o que acontece se o evangelho já não é a verdade revelada por Deus a que devem aderir as nossas inteligências, mas uma experiência comum, "a experiência real de Cristo na sua Igreja", como recordou Bento XVI? Qual é o resultado se a Tradição for a expressão de uma experiência vivida, que o magistério reinterpreta constantemente?

24. Francisco conta-nos no seu livro de entrevistas com Dominique Wolton: "A tradição é a doutrina que está a caminho, que está a avançar, porque a consciência evolui" (n. 6). Consciência do povo de Deus, do único sujeito-Igreja, que, diz Bento XVI, "cresce no tempo e desenvolve-se, mas permanece sempre a mesma". Como não ver aqui o erro já condenado pelo juramento anti-modernista, erro que "substitui o depósito divino revelado confiado à Noiva de Cristo, para que ela o mantivesse fielmente, por uma criação de consciência humana, formada pouco a pouco pelo esforço humano e que um progresso aperfeicoará no futuro"? Erro mortal desta Igreja do Vaticano II, que, como diz a Dei Verbum, "tende constantemente para a plenitude da verdade divina". Uma vez que depois do Concílio, o devenir tomou o lugar do ser. Francisco faz-se oráculo desse evolucionismo, consequência do neomodernismo.

25. S. João diz-nos que Pilatos perguntou a Jesus: "O que é a verdade? "(Jn, XVIII, 38). Não está aqui a origem profunda do modernismo? Recupera todos os sistemas de pensamento para os quais a verdade não existe, uma vez que está em constante processo de actualização. Nunca é alcançada. Tal era a religião de Pôncio Pilatos, que entregou Jesus aos judeus, para ser crucificado.

Notas:

1. Dei Verbum, n° 8.
2. Ibidem.
3. JEAN-BAPTISTE FRANZELIN, La Tradition, thèse XXII, n° 457, Courrier de Rome, 2008, p. 325-326.
4. BENOÎT XVI, «Discours à la curie du 22 décembre 2005» dans DC n° 2350, p. 59.
5. ID, «La communion dans le temps : la Tradition », Allocution du 26 avril 2006, dans L’Osservatore romano n° 18 du 2 mai 2006, p. 12.
6. PAPE FRANÇOIS, Rencontres avec Dominique Wolton. Politique et société, Editions de l’Observatoire/Humensis, 2017, p. 316.

Sem comentários: